Mesmo já tendo chegado ao Canadá na condição de residente permanente, resolvi fazer um College por uma questão bem simples. Na minha área original (música), não existe a “barreira da experiência canadense”. Mas há a inconstância do trabalho e a remuneração incerta, enquanto as contas do mês são bem constantes e certas… Dessa forma, decidi fazer o curso para me graduar numa carreira que abrigasse coisas que eu gostava de fazer e fazia como hobby ou mesmo como atividades de suporte ao meu trabalho no Brasil – principalmente quando organizei festivais de música – e aumentar minha empregabilidade além de me ajudar na conquista da temida “experiência canadense”.

Me inscrevi, então, no programa de Interactive Media Design, que engloba um pouco de design gráfico, um pouco de web design, um pouco de fotografia, um pouco de vídeo, um pouco de motion graphics, um pouco de user experience design…

Hoje, em julho de 2017, falta apenas um mês para eu completar esse curso. E como eu me sinto? Sinceramente, me sinto exausto e não vejo a hora de estar livre e partir em busca de um trabalho em tempo integral.

Não quero dizer com isso que o college foi ruim, ou é ruim. Não é nada disso! Ele tem coisas boas e coisas nem tão boas. Mas que ele é exaustivo, não há qualquer dúvida. Pergunte a qualquer pessoa que está lá dentro para saber!

E para mim que comecei o curso aos 42 anos, os desafios são ainda maiores. Vão do entrosamento com colegas de classe canadenses 20 anos mais jovens (que têm outra cultura, não compreendem as sutilezas da situação dos novos imigrantes em seu país, estranham o fato de alguém com título de doutor estar ali entre eles e podem ter muita dificuldade para aceitar a presença de alguém tão diferente) até o peso da rotina do curso no meu corpo.

Para começar, o curso não tem horários regulares. Já houve dias em que saí do college às 11 da noite para estar lá novamente às 9 da manhã no dia seguinte. Tudo fica condicionado à disponibilidade dos professores, e muitos deles têm outros empregos e só podem estar lá quando o expediente acaba. Dessa forma o corpo não tem uma rotina. O sono fica prejudicado, a alimentação também. Sem falar que em algumas ocasiões o college inventou dias com aulas de seis horas ininterruptas para nós, “para simular a jornada de uma empresa”… como se as empresas não dessem uma horinha de break para almoço…

No meu curso, a carga de assignments – esse termo pode compreender tanto os trabalhos quanto algo como um “para casa” – é pesada. Neste último semestre, vem sendo pesada como nunca. Enquanto numa empresa você realiza suas atividades no horário de expediente e está livre quando a jornada acaba, no college a jornada é dupla. Longas horas de aulas e depois longas horas para fazer os trabalhos exigidos pelos professores. Não há muita organização nisso: cada professor está interessado em sua disciplina, sem se importar no que os outros fazem.

Sinto falta do período em que fiz estágio remunerado numa ONG. Além dos colegas de trabalho serem muito bons, as atividades ocorriam das 9 às 5. Eu tinha tempo. Tinha horário certo para comer e me alimentava bem. Podia fazer minha hidroginástica. Ia e voltava a pé, mesmo no mais alto inverno. Era motivador. A volta para o College depois de quatro meses não foi fácil. Todos os dias sinto saudades daquela organização. Eu era mais feliz trabalhando.

E nem todos os professores são bons e dedicados. Vi gente que raramente aparecia para trabalhar e não avisava os alunos. Vi gente praticando malandragens como trabalhar em dois lugares diferentes ao mesmo tempo – claro, em um lugar a pessoa estava em sua forma invisível – para ser pago pelos dois.

Tive momentos bem difíceis. Fui apunhalado pelas costas (e vejam só, por um colega brasileiro de caráter duvidoso). Fui acusado ferozmente por uma colega de ter plagiado seu trabalho quando tudo não passou de uma pequena coincidência. Sofri com a rudeza de alguns colegas no dia-a-dia. Enfim, cheguei a abandonar o curso por três dias no inverno de 2016 mas fui convencido a voltar por um professor e pela minha mulher. Por sinal, a taxa de desistência nesse curso é muito alta. De setembro de 2015 até agora, cerca de 50% dos alunos ficaram pelo caminho.

Nesse curso, aprendi o que é ser passivo-agressivo.

Precisei lutar muito contra a vontade de abandonar tudo para seguir em frente e fazer um bom trabalho. Afinal de contas investi tempo e dinheiro. Está acabando. Sim, estou na reta final. É só isso o que posso pensar. Agora é hora de enfrentar o mercado de trabalho de verdade, competindo com pessoas mais jovens e com mais experiência local. E ver onde isso tudo vai me levar. A imigração é uma aventura. Vamos em frente!

Muita gente está interessada em fazer um College no Canadá. E se você me perguntar se recomendo a você cursar Interactive Media Design… a resposta é complexa. Você aprenderá bastante, sim. Se é jovem, não tem cônjuge nem filhos e está interessado nessa carreira, talvez valha a pena. Mas se você já tem mais idade e chegou com um cônjuge ou uma cônjuge e principalmente com filhos, sinceramente não recomendo. Esse curso talvez seja o mais puxado de todo o Algonquin College. Você terá pouco tempo para qualquer coisa fora do college, os assignments lhe consumirão bastante. Faça outro curso. Há oportunidades em diversas áreas por aqui.

Sobre a empregabilidade nessa área, sinceramente não posso dizer muita coisa. Mas talvez ela não seja tão alta quanto eu esperava.

Não me arrependo de ter feito o college, mas se eu soubesse como esse curso pesaria, talvez teria feito algum outro. Mas nesta altura, me sinto um vencedor só por ter chegado até aqui.

 

Músico, Doutor em Musicologia e designer de mídia interativa, vivendo em Ottawa desde 2015. Acredito que o sonho canadense não existe, mas sim uma multiplicidade de sonhos diferentes que convergem para o mesmo lugar!