Quem me conhece de alguma forma sabe que sou um crítico feroz ao termo “sonho canadense”. Mas nem todos entenderam o que eu realmente queria dizer.

Nunca tive a intenção de dizer a alguém para parar de sonhar porque os sonhos dessa pessoa não se realizarão. A questão é bem simples no caso de imigrar para o Canadá: é preciso separar a realidade do marketing puro e simples!

A expressão “sonho canadense” foi criada e popularizada por muitos e muito espertos marqueteiros – cuja nacionalidade não necessariamente é brasileira – que perceberam oportunidades de ganhar dinheiro a partir de algumas circunstâncias favoráveis:

  • a perda de fé do brasileiro em seu país, sobretudo o de classe média, diante do colapso do Plano Real e do PT como propostas de mudança para melhor;
  • a consequente sensação coletiva de que “o sonho acabou” e a avidez por sonhar, e principalmente por realizar seus sonhos e objetivos;
  • a própria cultura brasileira de desigualdade social, de consumismo, ostentação e luxo como símbolos de vitória e ascenção social, e o complexo de viralata do brasileiro;
  • a violência urbana que já era suficientemente incômoda mas voltou a crescer no Brasil com a grave crise econômica, e onde se mata por um mísero telefone celular.

Já temos aqui material farto para as ciências sociais e não é minha intenção discutir isso a fundo, mas é fato que mais e mais brasileiros cansaram-se (com toda a razão, e eu fui um deles) e passaram a considerar a possibilidade de ir embora em busca de uma vida mais digna, tranquila e plena. Esse contexto, principalmente em razão das emoções envolvidas que muitas vezes não nos deixam analisar com calma e visão crítica, significa fartura de oportunidades para os vendedores de sonhos. E após desenvolver seus produtos, eles lhes deram um nome de enorme impacto: sonho canadense. Essa tarefa foi muito fácil, porque bastou adaptar o sonho americano que tanto atrai brasileiros à terra do Tio Sam para um país vizinho e bem mais amigável à imigração. Que até sai pelo mundo realizando palestras e dizendo que precisa de imigrantes. Para pessoas que desejam a tranquilidade de um status migratório legal, sem que um Donald Trump destrua o sonho com uma canetada. Não! O Canadá tem o carismático Justin Trudeau, um primeiro-ministro jovem, carismático e que transmite uma imagem bondosa e amistosa. Um sorriso de boas-vindas!

Na análise apressada que esses marqueteiros competentes induzem, colocando as entrelinhas em letras bem menores ou mesmo as omitindo, sonhar é possível no Canadá. E os produtos estão na vitrine para os interessados: consultorias de imigraçãointercâmbios college. E não raro as vitrines são a Web, as redes sociais e o YouTube. Não importa se as atividades são regulamentadas no Canadá e essas pessoas não estão devidamente credenciadas para exercê-las. Diante das câmeras, elas estão vivendo o sonho. Já estão se realizando e colhendo frutos. Fazem vídeos dentro de carrões com os quais a grande maioria dos brasileiros só pode… sonhar (fico me perguntando por que não gravam vídeos caminhando pelas ruas ou andando no transporte coletivo)! Apresentam-se em casas bonitas, grandes, em regiões tranquilas onde não há criminalidade. Gravam seus vídeos e fazem suas fotos para o Instagram em locais lindos, serenos, tranquilos… Viajam pelo país mostrando maravilhas da natureza. Sonho canadense para quem acredita ter perdido o direito de sonhar e está ávido por isso.

E assim conquistam a atenção de quem deseja ser como eles e ter tudo o que eles aparentam ter. E compra o sonho canadense. Investe muitas vezes tudo o que acumulou pela vida, endivida-se, pede ajuda financeira aos familiares, e vem. Vem para uma aventura, onde o visto é temporário. Garante apenas uma temporada de estudos e não dá direito algum a permanecer. Vem muitas vezes sem a exata noção do que o Canadá realmente é e dos reais desafios que o país irá colocar logo adiante. Pensando que o país precisa desesperadamente de imigrantes, e mais ainda, de brasileiros. Pensando que tudo é uma questão de tempo. E que o emprego aqui é fácil. Contam com a residência permanente muitos antes de ela se viabilizar. Consideram-se tão imigrantes quanto aqueles que já vêm com o direito à residência permanente. Trazem a família. Crianças pequenas que não têm ideia alguma da razão de estarem se separando de pessoas queridas e não têm como escolher se vêm ou não para este mundo estranho onde não entendem o que as pessoas falam. E que depois poderão ter dificuldades de falar o idioma original da família.

Porém, nem tudo é o que parece. Quando você chega aqui e matricula-se no curso, a função dos vendedores de sonhos está cumprida. Você pagou o preço e eles lhe entregaram o pacote sonho. Mas se por alguma razão o sonho não dá certo e você precisa voltar para seu país para recomeçar tudo por lá sem suas preciosas economias, eles não estarão ali para te ajudar.

É exatamente por isso que eu sempre disse que o sonho canadense não existe. Esse sonho é puro marketing. Puro comércio. Existe, sim, o SEU sonho. O SEU objetivo de vida, que é só seu e de mais ninguém. Que não cabe nas vitrines de um comércio. Nem de um país, pois você o leva com você. Que será construído e realizado pouco a pouco, do seu jeito, com alguns acidentes de percurso e talvez não completamente (pois a vida também é a arte de aceitar que nem tudo será como desejamos). E que, para dar certo, precisa de muito suor, muito planejamento, muito pé no chão e nenhum apego a um mundo inatingível de fantasia. Até porque, se você parar para pensar, o “pouco” que você poderá encontrar por aqui já poderá ser muito bom! Quer que eu seja mais claro? Ser “pobre” para o padrão canadense já é muito bom! É uma vida muito digna!

Por tudo isso, pense bastante antes de tomar suas decisões, comprar esses sonhos e fazer as malas. Nem tudo que reluz é ouro. Os carrões exibidos nos vídeos de YouTube podem ser alugados ou emprestados. Da mesma forma, as lindas casas e todos os outros mimos. E além disso, pesquise muito para saber se você não tem condições de vir de outras formas – talvez até já com a residência permanente garantida – mas sobre as quais eles não falam porque não lhes dá dinheiro ou comissões por parte de instituições de ensino!

“Mas Alexei, todos os consultores e agências são assim?” Não, claro que não. Há muita gente boa e honesta nesse meio também. O problema é que algumas pessoas que aparecem muito podem não ser as melhores opções para te ajudar. Você precisa ficar atento para não comprar algo que é feito só de sonho e custa caro. Pesquise! Avalie mais opções! Veja quem tem visão crítica e te apresenta suas reais opções! Valorize quem olha para você como uma pessoa e não como um número… algo como mais uma comissão paga por um college!

Saiba que eu sempre irei apoiar o SEU sonho, mesmo que seja necessário embarcar numa aventura e andar na corda bamba dos vistos temporários e dos colleges. Talvez você não tenha mesmo outra opção, mas é preciso estar muito certo disso. Desde que você saiba o que está fazendo e tenha consciência dos riscos, eu estarei com você. Mas não apoio nada que induza a uma visão do Canadá como a terra prometida imune a todos os males do Brasil, onde tudo é perfeito e todos são felizes. Até porque, convenhamos: o Brasil só chegou aonde chegou por total e absoluta responsabilidade do seu povo. Espero que as sementes de problemas não estejam vindo nas nossas malas, e que o clima frio do Canadá não as permita germinar…

 

 

Músico, Doutor em Musicologia e designer de mídia interativa, vivendo em Ottawa desde 2015. Acredito que o sonho canadense não existe, mas sim uma multiplicidade de sonhos diferentes que convergem para o mesmo lugar!