Quem acompanha a minha trajetória há mais tempo sabe que foi a música que me trouxe ao Canadá. Apliquei para a residência permanente ainda do Brasil, numa categoria específica para artistas, esportistas e pessoas que desejam adquirir e administrar fazendas no país: a Federal Self-Employed.

Essa classe de imigração não é muito conhecida e recebe poucas candidaturas por ano, por isso pouco se fala a respeito. Mas sim, quem tem uma sólida experiência na área artística pode ter ótimas chances de receber a residência permanente para o Canadá.

Mas, recebida a residência permanente, começam os desafios.

Em primeiro lugar, certas atividades artísticas são exercidas majoritariamente de forma… autônoma. E por isso o nome Self-Employed se aplica muito bem. E o início por aqui acaba sendo especialmente difícil porque você literalmente cai dos céus neste país sem muitos contatos e networking. E precisa começar tudo do zero.

Se você me perguntar se foi melhor ter vindo para Ottawa em vez de para Toronto, Montreal ou Vancouver – cidades onde o mercado artístico seria mais amplo – eu diria que talvez sim, foi melhor. Porque Ottawa vem crescendo muito em diversos setores e o artístico é um deles. Mas ainda não estamos num estágio em que os artistas e empreendedores culturais da cidade são inatingíveis. Eles podem ser encontrados com relativa facilidade e ainda é possível bater à porta dos espaços culturais da cidade e pedir uma oportunidade aos donos ou administradores.

É uma situação de certa forma semelhante à de Belo Horizonte, uma cidade que tem um cenário artístico muito variado mas eminentemente local. Só que sem as panelinhas que controlam o mercado cultural na cidade. A produção cultural por aqui ainda envolve um grau elevado de amadorismo. Muitos artistas, infelizmente, optam por ter outros empregos e tratar a arte como uma carreira secundária ou mesmo um hobby. Consequentemente, muitos não conseguem desenvolver seus talentos ao máximo ou mesmo ter uma produção consistente.

O que isso significa? Oportunidades para empreendedores culturais! A cidade precisa ter mais festivais, mais diversidade, mais representatividade nesse campo, mais ideias. Sem falar que, neste país multicultural, precisamos de mais representatividade para nossa cultura. E isso só depende de nós.

Mas um inconveniente da situação está exatamente na formação de público para você. Como imigrante, você não pode contar com seus colegas de ensino médio e com seus velhos amigos para ir aos seus shows. Então, as plateias vazias sem conhecimento do que você está fazendo predominam. Isso é ruim por um lado e ótimo por outro. Se você for bom, vai ganhando público pouco a pouco. É uma pescaria diária.

A timidez de muitas pessoas por aqui também incomoda um pouco. Muitas vezes, elas até prestam atenção no que você faz e gostam. Mas têm uma certa dificuldade de expressar isso para você, sem se dar conta de que é tudo o que você precisa naquele momento.

Enfim, não espere ganhar dinheiro a curto prazo. A palavra de ordem é começar pequeno e ser persistente, dando o seu melhor em 150% do tempo. Tenha uma reserva financeira ou arranje um trabalho em tempo parcial se for preciso, mas não desista! Você está agora no Canadá. É uma outra história, o Brasil ficou para trás. Com isso,

  • saiba que ninguém, mas ninguém mesmo, vai te desrespeitar como os brasileiros muitas vezes desrespeitam os músicos em bares e restaurantes. Ninguém interfere no seu trabalho. Ninguém te atropela cantando parabéns para você quando alguém está tocando, ninguém deixa de pagar um couvert artístico obrigatório. Muitas vezes há a opção “pay what you can”, que dá à pessoa a opção de pagar o quando puder ou mesmo de não pagar, mas isso é consentido. Não vão te desrespeitar mesmo quando não conhecem o que você está tocando e não entendem a língua, como no caso da música brasileira;
  • não se ganha muito no começo, mas nunca toquei de graça. Mesmo nos piores dias eu voltei para casa com algum dinheiro;
  • há as chamadas grants, semelhantes às leis de incentivo – federais, provinciais e municipais (estas últimas dependem da cidade) – mas sem a presença das empresas patrocinadoras. É dinheiro do governo mesmo para auxiliar os artistas. E a província de Ontario concede grants até mesmo para criar música. No Brasil, tudo é mais restrito. Além de que muitas vezes esses programas tinham cartas marcadas e ajudavam mesmo quem não precisava deles. Eu não sabia de absolutamente nada a respeito disso quando cheguei aqui… na verdade só fiquei sabendo neste ano. É algo que estou começando a explorar… vamos ver o que acontece;

Se foram as artes que te trouxeram para este país, não desista delas de cara em razão da empregabilidade! Principalmente se você tiver bastante experiência e for realmente bom insista, batalhe, planeje, vá com paixão e fé! A médio e longo prazo, você pode ter mais chances fazendo aquilo que realmente ama… Por mais que você precise superar dificuldades, não deixe que elas te desanimem a ponto de deixar a arte de lado!

 

Alexei Michailowsky

Written by Alexei Michailowsky

Músico, Doutor em Musicologia e designer de mídia interativa, vivendo em Ottawa desde 2015. Acredito que o sonho canadense não existe, mas sim uma multiplicidade de sonhos diferentes que convergem para o mesmo lugar!

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