Sobre a situação dos índios no Canadá

Os povos indígenas se estabeleceram no território canadense segundo os historiadores há 15 mil anos atrás; segundo arqueólogos, há 26.500 anos atrás. Isso aconteceu quando houve o nível dos oceanos baixou criando uma passagem entre a Euro-Ásia e a América.

Em 1500 os portugueses chegaram na ilha de Terre-Neuve e capturaram alguns índios como escravos, sem tomar possessão das terras. Em 1534 Jacques Cartier chega em território canadense. Com toda a sua malandragem negocia a terra da tribo Micmacs em troca de facas, panelas, pérolas de vidro e bijuterias.

Os índios eram pacíficos, não conheciam o álcool e aceitavam as diferenças sexuais até serem corrompidos pelos europeus. Tudo muito parecido como o Brasil tratou os seus índios.

Parte dos povos indígenas ficaram sob o domínio dos franceses e outra parte sob a influencia dos ingleses. Os povos foram deslocados da região dos grandes lagos e houve uma guerra entre os 5 povos predominantes no começo do século XVII. Boa parte morreram nos conflitos outros tantos morreram das doenças trazidas pelo homem branco.

O controle dos povos indígenas

A partir de 1634, chegaram os jesuítas, representando a igreja católica, com a missão de evangelizar os autóctones. O interesse era que os Hurons, os vencedores da guerra, os fizessem descobrir a região. Os Iroquois, sob influencia inglesa, foram para Huronnie e massacraram os padres católicos.

Cerca de 2500 índios foram escravizados durante o período da Nova-França, como era chamada a região dominada pelos franceses.

Considerados como selvagens, não houve tentativa de construir uma sociedade com os dois valores juntos e bem misturados. O que houve na verdade foi invasão, escravidão, execução, exclusão e estupros. Quando mais tarde tentaram inseri-los na sociedade, foi na força bruta, querendo impor os valores do europeu.

Alguns territórios foram negociados com os chefes das tribos por meio de troca monetária. Por exemplo, o território de Toronto foi cedido pelo equivalente a 60$ CAD. Parece brincadeira, mas não é.

Em 1876 a lei sobre os índios controlava as tribos. Aboliram suas línguas, recolheram e destruíram os objetos de cerimonia indígenas. Eles não podiam deixar as reservas sem permissão do Estado. Para irem à universidade eram obrigados à abandonar a condição de índio. Não podiam contratar advogados, se manifestar ou reclamar. As reservas eram pequenas, em terrenos de má qualidade e controladas pelo Governo. Precisavam de permissão para cultivar e se o líder da comunidade reclamasse era substituído.

Séculos de opressão

O que sobrou do índio que teve arrancada a sua cultura, o seu território e a sua religião? O que restou das comunidades que tiveram a sua liberdade econômica controlada e limitada?

A partir de 1955, 150 mil crianças autóctones foram enviadas à força aos 130 pensionatos pelo país. Chegando lá tinham seus cabelos cortados à força com o mesmo corte. Eram obrigados a falar francês e eram humilhados constantemente. Diziam que fediam. Eram proibidos de falar a língua deles, praticar a religião ou seus costumes. Os irmãos não podiam falar entre eles. Eles eram punidos com agressões físicas se desrespeitassem as regras do pensionato. Eram estuprados com frequência pelos padres. Houve 4134 crianças mortas nos pensionatos.

O objetivo era de matar a cultura indígena.

Quando liberados na adolescência, saíam de lá deprimidos e com ideias suicidas.
Somente em 2008 um pedido de desculpas pelo primeiro ministro Harper e pelo papa foi dado aos povos autóctones.

Aquisiçao de direitos e negociação com o governo

Em 1960 os autoctones obtiveram finalmente o direito ao voto.

Em 1975 e em 1978, 2 convenções importantes foram assinadas, a convenção da Baie James e do norte do Quebec, dando exclusividade ao direito à caça e a pesca no território que equivale à 2/3 do Québec, localizado no norte da província, além de uma recompensa financeira de 234 milhões entregue em vários anos. Em contra partida o governo Quebecois obteve o direito de explorar os recursos florestais, hidráulicos e minerais da região. Mais uma vez a população indígena foi manipulada à ponto de cair neste ”golpe”,  houve muito investimento mas não nas comunidades e sim para exploração dos recursos hidráulicos desta região.

Em 1988 os índios estavam cansados de ver os seus rios sendo sugados e deslocados em direção das barragens.

Como pescar em rios secos? Houve então, uma grande manifestação para salvar o rio Grande-Baleine. A manifestação foi um sucesso. Com o apoio da mídia eles conseguiram salvar o rio e quebrar um contrato de $17 bilhões.

A cidade Shifferville não assinou a convenção da Baie-James e até hoje vivem esquecidos, sem recurso, sem infraestrutura.

Na provincia Manitoba também houve um acordo muito parecido, ofereceram recompensa financeira para explorar os recursos hidráulicos. O deslocamento dos rios, inundou a região deixando a terra infértil e a pesca impossível.

Em 2010 os jogos olímpicos de inverno aconteceram em Whistler, região indígena. Então houve uma melhoria de 75% na qualidade de vida dos índios desta cidade.

Em 2011 Jean Charest anunciou o Plano Norte, cerca de $80 bilhões em 25 anos no norte do Québec. O foco era extrair os recursos minerais desta região. Seriam 20 mil novos empregos por ano para os autóctones e melhoria na estrutura do norte, tais como CLSC e escolas.

O panorama atual: desespero e preconceito

Hoje são quase um milhão e meio de autóctones no Canada. Mais de 50% vive nas grandes cidades. A outra parte vive em reservas no norte e no oeste do país. Winnipeg é a cidade grande com a maior concentração de indígenas.

A maior concentração de autóctones sem abrigos está em Vancouver. Estes são os que vieram para cidade grande na tentativa de encontrar um trabalho e não conseguiram se inserir. Com o passar do tempo vivendo na rua acabaram consumindo drogas se viciando e não encontraram volta à uma vida normal e saudável.

Os índios não querem viver em reservas. Elas têm sérios problemas estruturais. O que o índio quer é se inserir na sociedade.

Os índios que vivem nas cidades grandes são como qualquer outro cidadão. Eles pagam taxas, trabalham em todo tipo de profissão e estudam.

Não, os autóctones, não são em sua maioria pobre e alcoólicos, mas ainda existe 1/3 entre eles que abandonam a escola antes de terminar o ensino médio.  Não são os jovens autóctones que deixam a escola, mas a escola que deixa o autóctone, pois eles não se sentem confortaveis em um ambiente que não os representa e que não considera os seus valores .

O racismo contra os autóctones existe e o sentimento de exclusão acaba os enfraquecendo psicologicamente. Jovens que vivem nas grandes cidades têm 5X mais chances de se inserir no mundo do crime. Existem 2X mais famílias autóctones vivendo na pobreza do que famílias de outras origens. Violência conjugal e alcoolismo fazem parte da vida de muitos deles. Isso termina criando um sentimento de revolta entre os jovens. Os problemas psicológicos aumentam quando o índio tem a consciência de que ele não tem um bom lugar no Canada.

Em busca de respeito

O que o índio quer é o reconhecimento da ocupação do território deles e de ter um lugar na sociedade.

A solução é investir na educação dos jovens desde cedo para que eles compreendam e reconheçam o valor dos autóctones. Isto custaria muito mais barato para o Estado do que tentar mantê-los afastados.

Algumas organizações se dedicam a integração de jovens na sociedade, com programas de artes e esportes.

Muitos índios vivem de sua arte. A arte é o meio de comunicar a cultura e toda a sensibilidade e fragilidade deste povo.

Atualmente existem vários programas do governo federal tais como: Programa de ajuda à renda familiar, programa de prevenção contra a violência familiar, programa de ajudar aos autônomos.

Mas a realidade é que nas reservas muitos índios vivem sem acesso à saúde, com escolas improvisadas, moram em abrigos muitas vezes sem aquecimento, com infiltrações, muitos não têm água encanada nem sistema de saneamento. Nem parece que isso se passa no Canadá, parece aqueles assentamentos em países de terceiro mundo.

Desenvolvendo a consciência

Os índios só conseguem algo por meio de muita negociação e de manifestações. Muitos os que assistem de fora a estas manifestações se dizem: “- Mas o que eles querem a mais? Nós já os sustentamos.”

Me deixa indignada quando pessoas falam que índio não precisa de viver no conforto em que vivemos. Que índio só precisa pescar, caçar e pronto! Não tem problema nenhum.

Isso não significa: “ah, mas nada os impede de trabalhar e estudar como qualquer outro cidadão.” Isso quer dizer que nós temos muito o que aprender com eles e a cultura indígena deve ser nossa também, temos que construir um futuro unidos.

É preciso entender a história dos índios para compreender a situação atual deles e não cair no preconceito impregnado em muitos canadenses.

Uma sociedade justa deve inserir e dar todo o apoio para que o índio faça parte dela. Não como o eterno índio selvagem, mas sim como um cidadão como qualquer outro.

Referências

Alice Bessa Veloso

Written by Alice Bessa Veloso

Gosto de me comunicar de maneira criativa e ajudar imigrantes a melhor se integrarem na sociedade canadense. Conheço os grandes desafios ligados a imigração e estou disposta à compartilhar dicas e meus conhecimentos a fim de facilitar a integração dos recém chegados.

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