A rotina de mamãe-estudante no Canadá

No texto anterior, falei sobre as dificuldades da minha rotina de mamãe-estudante no Canadá, onde atualmente moro com meus dois filhos pequenos. No texto de hoje, vou falar das estratégias que adotei para poder tornar meu dia a dia viável aqui. Foram coisas que fui aprendendo ao longo do caminho, e não algo que eu tenha implantado tudo de uma vez. Aos poucos fui fazendo ajustes, até que cheguei à minha rotina atual. Ainda há coisas que podem ser melhoradas, mas, por enquanto, já tenho me dado por satisfeita com a forma como minha rotina está organizada aqui.

Mas, então, quais estratégias utilizei?

Eu sempre fui uma pessoa organizada, mas desde que comecei a fazer o College no Canadá, eu tive que elevar a níveis extremos minha capacidade de organização e planejamento. Se não fizesse isso, seria muito difícil dar conta de tudo aqui. Por outro lado, tenho ciência das minhas limitações como ser humano. Por isso, pratico o desapego e relaxo em relação às tarefas da casa, por exemplo. Eliminar tarefas é meu mandamento número 1, uma vez que na minha rotina eu só faço o estritamente necessário – mas é estritamente mesmo! Não há tempo nem espaço para tarefas menos importantes – e nesta lista incluem-se passar roupa ou passar aspirador na casa todo final de semana. Como muita gente me pergunta como é que eu faço para dar conta de tudo, ao mesmo tempo em que consigo manter boas notas no College, vou contar um pouco disso para vocês aqui.

1. Escolher um curso em área afim

Escolher qual curso irá fazer é uma das primeiras decisões a ser tomada por quem vem estudar no Canadá. Se a pessoa vier com filhos pequenos, eu diria que o melhor é escolher um curso no qual a pessoa tenha facilidade ou pelo qual tenha verdadeira paixão. De forma geral, isso é sempre o melhor, claro. No entanto, isto torna-se mais crítico em uma condição como a minha.

Na minha opinião, o ideal seria fazer algo na área que a pessoa já estuda ou trabalha, pois isto vai aliviar a rotina de estudo no College. Eu, por exemplo, sou engenheira civil e optei por um programa de Civil Engineering. Aí então alguém pergunta: “Quer dizer que o curso é fácil e você não precisa estudar nada? ” Digo sempre para esquecerem a palavra “fácil” quando se trata de College (e mais ainda, quando falar de pós-graduação, mestrado, doutorado). Não existe nada “fácil” aqui. O que acontece é que a pessoa poderá estudar um pouco menos para algumas matérias do College. Haverá, no entanto, aquelas matérias que serão totalmente novas. Fora isso, há bastantes trabalhos, muitas provas, participações em debates, apresentações em um idioma que não é nossa língua nativa, exames finais. Se a pessoa escolher o curso em uma área com a qual já tenha afinidade, ainda assim será algo bem difícil, cansativo e trabalhoso. Se escolher em uma área totalmente nova, na qual não se tem nenhum conhecimento prévio, logicamente o grau de dificuldade será ainda maior.

2. Morar o mais perto possível do College

Morar perto do College é fundamental para conseguir dar conta de tudo numa rotina tão cheia como a minha. Morar muito longe significa desperdiçar horas preciosas do dia dentro de ônibus e metrô. São horas que você poderia usar para estudar ou fazer suas tarefas domésticas, mas que acabarão indo pelo ralo. No inverno, isso fica ainda pior, pois o trânsito fica mais amarrado em dias de muita neve. Considerando que estou sozinha com dois filhos pequenos aqui e tenho que ajustar os horários das aulas com os horários das aulas dos pequenos, perder horas no trânsito é um “luxo” que eu não posso me dar. Fora isso, com tantas coisas a dar conta, maximizar o tempo disponível é fundamental.

Quando cheguei aqui, fui procurar logo apartamento do lado do College, mas infelizmente não encontrei nada perto o suficiente para ir a pé. Acabei alugando um apartamento a poucos minutos de ônibus do College. Ainda assim, confesso que estes minutos que perco entre ir e vir me fazem falta na rotina tão cheia.

3. “Desapegar” das tarefas do lar

Se fizermos uma comparação com o povo norte-americano, podemos dizer que o povo brasileiro tem mania de limpeza e organização. Aqui, ninguém fica limpando e lavando casa o tempo todo não (até porque aqui quem limpa a casa é a própria família). No início, até tentei manter uma rotina de limpar a casa semanalmente. Depois vi que isso seria inviável. Então tive que “espaçar” esta limpeza: quando dá, faço a cada 2 semanas, ou 3, ou…. Falando bem honestamente, a frequência da limpeza depende muito de como a casa está. Tento manter limpo e organizado para não precisar limpar frequentemente ou, quando a coisa fica mesmo ruim e eu estou sem tempo, faço limpezas “parciais”: limpo um cômodo que esteja precisando (geralmente o banheiro) e dou apenas uma “ajeitada” nos demais.

4. Usar e abusar da praticidade dos produtos

Aqui no Canadá você vai encontrar vários produtos de limpeza que facilitam muito a sua vida: paninhos de limpeza umedecidos; sprays que você apenas borrifa na banheira e depois enxágua, sem precisar esfregar; pastilhas que você coloca dentro da caixa de descarga e que “limpam” o vaso sanitário a cada descarga, entre outros.

Para cozinhar, há muitos pratos prontos ou semi-prontos que te salvam na hora do aperto. Ou ainda, há as panelas elétricas que facilitam muito na hora de cozinhar.

Eu, inicialmente, fui relutante em comprar uma panela elétrica para cozinhar arroz. Depois percebi que o simples ato de cozinhar arroz era algo me atrapalhava nos estudos, pois eu tinha que verificar várias vezes se o arroz já estava cozido, se tinha secado a água, etc. Em parte, isso ocorria porque o arroz aqui é diferente do arroz do Brasil. De toda forma, percebi que estava desperdiçando meu precioso tempo de estudo com uma coisa tão simples. Comprei a panela elétrica e fiquei impressionada em ver como isso realmente ajuda muito no dia a dia. Investimento que fiz e recomendo.

5. Pedir a ajuda dos assistentes mirins

No apartamento onde moro não há máquina de lavar louça. Então, para não desperdiçar meu tempo lavando louça, coloco meus pequenos para fazer esta tarefa diária. Também peço a ajuda deles para limpar a casa, seja passando pano no chão ou aspirador de pó. São eles também que separam e dobram as roupas depois de lavadas – e sempre um dos dois tem que ir comigo até a lavanderia para colocar a roupa na máquina de lavar e de secar.

É um excelente aprendizado para eles e, de quebra, eles me ajudam muito a dar conta das coisas aqui.

6. Ativar um “piloto automático”

Outra coisa que eu percebi que impactava muito negativamente no meu rendimento era eu ter que ficar a todo momento parando de estudar para lembrar as crianças que era hora de tomar banho ou de escovar os dentes, entre outras coisas. Quem é pai ou mãe sabe que a gente tem que falar a mesma coisa dez vezes para ser ouvido. Como eu não tenho tempo para isso, ativei o despertador do tablet da minha filha, com os horários das tarefas. Agora há pouco mesmo, enquanto eu escrevia este texto, um dos alarmes soou, avisando que era hora de tomar banho. Regime militar? Talvez. Mas foi a maneira que encontrei para conseguir ficar concentrada no que faço, enquanto o “piloto automático” os lembra das coisas que eles têm que fazer.

7. Utilizar recursos para manter a concentração

Uma coisa que me ajuda muito na concentração na hora dos estudos é ouvir música. Como as crianças muitas vezes estão vendo TV, brincando ou jogando no tablet, eu ouço música com fones de ouvido. Assim, consigo me concentrar e estudar sem que as distrações externas me atrapalhem. Fora isso, ensinei às crianças que, durante meus momentos de estudo, eles só devem interromper se for realmente importante. Não é o que eu gostaria, mas é necessário. Essa regra, aliás, eu já utilizava no Brasil, porque eu fazia projetos em casa e precisava manter a concentração.

8. Contar com a ajuda de terceiros

Logo que cheguei no Canadá, eu tentava ajudar as crianças nas tarefas escolares. No início, isso é bastante necessário, pois eles têm dificuldade em entender o que o enunciado está pedindo. Além disso, este é um momento de interação com os filhos e também uma forma de acompanharmos sua evolução e dificuldades na escola.

No entanto, isso se mostrou inviável para mim, ainda mais com dois filhos trazendo tarefas para casa quase que diariamente. Para solucionar meu problema, contratei um serviço de “tutoring”, que nada mais é que uma pessoa que os ajuda nas tarefas escolares. Consegui encontrar uma tutor que mora no mesmo prédio que eu, para que eles possam ir e voltar sozinhos. Foi um gasto extra que eu não previ antes de vir para cá, mas que tive que assumir para viabilizar o andamento da rotina. No final, o resultado tem sido muito positivo: as crianças aprendem bem, fazem a tarefa mais rápido do que quando faziam comigo em casa e ainda fazem exercícios de reforço que ajudam na adaptação na escola.

9. Tirar a driver’s license assim que chegar ao país

Ter um carro em uma rotina tão cheia ajuda muito. Por isso, o ideal é tirar a Driver’s License tão logo isso seja possível. Não digo para necessariamente comprar um carro. No entanto, é bom logo ter a habilitação para poder alugar ou utilizar os serviços de carro compartilhado oferecidos aqui. Um carro ajuda muito a viabilizar passeios mais distantes com os filhos ou mesmo a fazer compras no supermercado nos finais de semana.

10. Cuidar de si mesmo

No meio de tanta correria, parece impossível arranjar tempo para o autocuidado. No entanto, isso é fundamental para que se consiga dar conta de tudo. Então, por mais que isto seja difícil, é importante estabelecer como prioridade dormir bem, ter uma boa alimentação, fazer exercícios e, para adeptos como eu, meditar.

Logo que cheguei, confesso que deixei todas estas coisas meio de lado. No entanto, bastaram alguns meses para que eu começasse a adoecer por conta do cansaço extremo. Para reverter este quadro, me matriculei na academia do College e mantenho uma frequência mínima de 3 vezes por semana. Além disso, voltei aos meus hábitos de alimentação saudável e também procuro sempre estar atenta ao horário de dormir. Com isso, passei a me sentir mais bem disposta e não fiquei doente mais nenhuma vez. Investir uma parte do tempo para ir à academia e para dormir o suficiente é algo que nos faz render mais e melhor. Por isso, esse tempo nunca é “desperdiçado” e, sim, é um tempo que se ganha. Então, mesmo em meio a uma rotina super atribulada como a minha, o sono e a saúde devem estar em primeiro lugar.

Pico Iyer, escritor britânico, autor de livros que falam sobre porque devemos desacelerar nossas vidas, diz:

pico-iyer

Em tradução livre: “São exatamente as pessoas mais ocupadas que mais precisam de um tempo para si mesmos”. Pico Iyer.

Esse é exatamente o meu caso e eu acho que ele está muito certo. 🙂

No final, um saldo muito positivo

Com tudo isso que listei aqui, consegui organizar a rotina e abri espaço para passear com as crianças ao menos 2 vezes por mês. Não é muito, mas logo que cheguei, eu não conseguia passear nem um dia sequer, então já considero isso um avanço! Outras vezes, eles vão brincar na casa de amiguinhos do condomínio enquanto eu fico estudando.

Claro que hoje eu gostaria de poder dar mais atenção para eles, poder passear mais vezes. No entanto, nesta vida de estudante internacional, com dois filhotes para cuidar, confesso que fica realmente difícil. O que me faz seguir em frente é a convicção de que este é um sacrifício temporário que faço pelos meus filhos e por mim mesma. Um “efeito colateral” que percebi nesta nova rotina é que meus filhos cresceram e amadureceram bastante, tornando-se muito mais independentes do que eram quando estavam no Brasil. Vejo também que eles têm muito orgulho em contar para as pessoas que a “mamãe está fazendo College”! Fora isso, apesar de eu ter pouco tempo para estar com eles, nossa relação tornou-se ainda mais estreita. Essas coisas todas não têm preço e me fazem acreditar que, apesar de árduo, este é um bom caminho a seguir. Por isso, vamos em frente, com força, garra e muita alegria no coração!

E você, amigo leitor, quais suas estratégias pra economizar tempo na sua rotina? Conte-nos nos comentários! Suas idéias e opiniões enriquecem muito o debate!

 

Veja mais:

Gostou da frase do Pico Iyer? Tem mais sobre ele nos links abaixo:

Pico Iyer: Why we need to slow down our lives

Pico Iyer: The art of stillness (TED Talk)

Pico Iyer: Where is home? (TED Talk)

Obs.: os 2 últimos links são palestras, com legenda disponível em português.

Créditos da imagem principal: http://blog.online.colostate.edu/blog/online-education/time-management-for-online-students-getting-organized-in-3-ss/

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Andrea Zotelli

Written by Andrea Zotelli

Formada em Engenharia Civil, vim para o Canadá em busca de novos horizontes. Sou uma pessoa curiosa que adora ler, escrever e participar de debates sobre os mais variados temas. Minha imensa vontade de aprender e trocar experiências acabou me trazendo aqui para o Canada Agora.

5 Comentários

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  1. Gostei do seu texto, me fez repensar algumas coisas. Porque também tenho filho e não abro mão da minha companhia na vida dele por nada. Aqui no Brasil fazemos tudo juntos, hora de brincar, de ler de ver desenhos na TV.Não gosto também que fique muito tempo com aparelhos eletrônicos. Se o estudo toma esse tempo todo, talvez eu faça algum que não seja mestrado e nem doutorado. Estou indo para poder “curtir” uma nova cultura e ter experiências novas, mas tudo isso que vc faz aparentemente não sobra quase nenhum tempo para seus filhos. Nem mesmo a lição faz juntos. Realmente não é essa educação que quero vivenciar aí. Muito obrigada por compartilhar.

    • Olá, Tamara,

      Obrigada pelo seu comentário.

      Olhe, essse texto foi escrito no período em que eu estava estudando – e eu estava sozinha aqui, com meus 2 filhos. Realmente não sobrava tempo pra nada. Foi assim durante 1 ano e meio. Depois meu marido veio pra cá (abril de 2017) e isso melhorou muito.

      Hoje a vida já está num ritmo normal – e o normal a que me refiro é o dia-a-dia de pessoa que trabalha e tem filhos: ou seja, crianças durante o dia na escola, e a gente trabalhando. Á noite e nos finais de semana é quando temos tempo de estar juntos. Nesse sentido, não vejo diferença ao que era no Brasil. Nossa vida já era assim aí.

      Quanto a fazer um curso que não seja mestrado ou doutorado, posso te garantir que não é isso que vai fazer diferença. Eu fiz college (que não tem exatamente um equivalente no Brasil; se tivesse seria como um curso superior, após a conclusão do ensino médio; é um curso de nível técnico). Conheço pessoas que fizeram mestrado e o curso foi muito mais leve que o meu; outras que fizeram mestrado e o curso foi puxado igual ao meu. O que faz mais diferença é a instituiçao e a área do curso. Instituições privadas costumam ser bem mais tranquilas (mas são também menos sérias e muito menos conceituadas).

      Claro, se vc vier sozinha com seu filho, vai ser puxado de forma geral, mesmo que o curso seja mais leve. Se vc vier com marido/companheiro, aí fica mais fácil levar.

      Mas realmente não dá pra vir pensando que vai sobrar muito tempo pra fazer muita coisa com o seu filho. No início, toda a adaptaçao exige muito de nós, não só de tempo, mas também disposição física e mental. É bom colocar tudo isso na balança antes de decidir imigrar.

      Abraço e tudo de bom pra você.

      • Obrigada novamente. Vou pesquisar quanto à isso sim. Com certeza será puxado, mas como já é aqui no Brasil. Meu marido vai junto, mas mesmo assim, ne? Um ponto muito importante a ser pensado é o curso.Estava meio que aceitando qualquer um, mas com filho preciso me atentar ao tempo que me custará.

  2. Oi, Kleber, obrigada pelo comentário.

    De fato, aqui no Canadá tudo as tarefas são divididas. Na minha casa no Brasil isso sempre foi assim também, desde que casamos.

    A gente já tinha uma forma meio “norte-americana” de viver a vida aind ano Brasil. Eu não gosto dessa cultura de ter estes serviços de babá/empregada. Só tive mesmo quando foi extremamente necessário e por curto período. Logo que pude, voltamos a ficar somente eu e meu marido responsáveis pelas tarefas da casa. Acho que isso já facilitou bastante nossa adaptaçao aqui no Canadá.

    Abraço!

  3. Pelo que li, vc me parece uma pessoa que se adaptou rapidamente à rotina canadense de trabalhar fora e dentro de casa, sem o auxílio da “secretária” que muitos de nós tem acesso no Brasil.

    Parabéns pela sua resiliência !

    À propósito, os cuidados da casa se estendem aos pais (homens)também. Aliás, os casais canadenses dividem a 50% o trabalho caseiro, da faxina a cozinhar, lavar roupas, cortar grama, colher folhas, remover neve, dar banho nas crianças pequenas, trocar fraldas de bebês, etc, etc, etc.

    O norte-americano, contrário ao que se pensa, tem uma vida super-cansativa em vista de fazer tudo ele mesmo. Não por opção, mas porque os serviços de uma diarista, babá, etc são bem caros aqui.

    Justamente caros, diga-se de passagem. Afinal, são serviços.

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