Canadá, as duas solitudes

Duas Solitudes

Nos últimos tempos, venho tentando conhecer melhor a música canadense. Para isso consulto artigos publicados no site da Red Bull Music Academy e outras publicações especializadas, geralmente escritos por DJs ou experts em música de todo o planeta. Acabei descobrindo artistas incríveis que não conhecia. E como boa parte dessa música foi produzida nos anos 70 e 80, resolvi ir atrás dos discos de vinil imaginando que aqui seriam baratos e fáceis de encontrar.

Até tenho encontrado esses discos, mas a busca não tem sido tão fácil quanto eu imaginava. E sabem por que? Porque alguns dos artistas vieram de Montreal e gravavam em francês (embora não somente; muitos gravavam em inglês, ou nas duas línguas).

Pois saibam que nas lojas de discos usados de Ottawa é muito difícil encontrar trabalhos de artistas baseados no Québec, por mais importantes que eles sejam para a cultura canadense como um todo. Chega a ser mais fácil encontrar discos de world music onde a língua é o espanhol ou o árabe do que títulos “franco-canadenses” – mesmo que estes estejam em inglês! Diante dessa situação, pergunto a mim mesmo: por que a capital federal de um país bilíngue ignora tanto uma porção significativa da cultura nacional? Em Ottawa, o rock ‘n’ roll é rei – é bem difícil para os admiradores da música negra, por exemplo, encontrar discos e não existe uma loja para DJs – e pouca atenção é dada a qualquer coisa que não esteja em língua inglesa.

Mas como basta atravessar uma ponte – inclusive a pé – para chegar a Gatineau (na província do Québec), eu pude visitar os sebos de disco dessa cidade e ali encontrei muitos títulos a um ótimo preço. E mais uma vez fiquei com a impressão de estar numa grande área urbana onde um rio faz as vezes de muralha dividindo dois mundos bem diferentes que não fazem questão de se misturar. Não adianta fazer uso de toda essa polidez em que as pessoas preferem desaparecer a ter que dizer “não” às outras: um simples passeio em Gatineau me dá a impressão de estar num outro país. A arquitetura é bem diferente, o jeito das pessoas é outro, e a cultura é outra.

Bizarramente dividida entre duas províncias, a Região da Capital Nacional é uma das traduções mais perfeitas das “duas solitudes” que representam o Canadá nas palavras do escritor Hugh MacLennan: a do Québec predominantemente francófono e a do “resto do Canadá” predominantemente anglófono. Onde Ontario é a província mais importante e mais rica.

Mas o país é um só, e quem se aventura a cruzar as muralhas invisíveis acaba ganhando bastante. Aprende uma nova língua, toma contato com um jeito diferente de ser e de viver, e interage com uma maior quantidade de aspectos culturais. Por exemplo: a comida, a música, a festa, a literatura… E isso nunca é demais, nem tem contra-indicações. Mas muitas vezes fechamos nossos olhos para essa realidade e preferimos ficar apenas em um dos lados da muralha. Ou vamos para o Québec e funcionamos apenas em francês, ou seguimos para Ontario ou qualquer outra província em busca de uma vida apenas em inglês. Ignorando consequentemente a herança franco-canadense.

Mas não deveria ser assim, nem precisa. O Canadá nunca ganhou nada erigindo muralhas entre a herança inglesa e a herança francesa. Cada lado tem seus motivos e seus erros e talvez Pierre Trudeau estivesse certo ao insistir no bilingualismo em todo o país. Mas como novos canadenses dispostos a contribuir com o país, temos todo o direito de apreciar o melhor da cultura inglesa e da cultura francesa (bem como de todas as culturas que aqui estão representadas) e o dever de trabalhar pelo fim dos muros invisíveis e pela busca da paz.

E que tal um pouco de música canadense da melhor qualidade? Tenho aqui uma reportagem muito boa para você ler, e você também pode dar o “play” aí!

Reportagem da Red Bull Music Academy sobre a música feita em Montreal nos anos 70 e 80

Uma playlist do Spotify com músicas muito legais pra você conhecer e curtir!
Alexei Michailowsky

Written by Alexei Michailowsky

Músico, Doutor em Musicologia e designer de mídia interativa, vivendo em Ottawa desde 2015. Acredito que o sonho canadense não existe, mas sim uma multiplicidade de sonhos diferentes que convergem para o mesmo lugar!

Um comentários

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  1. Excelente artigo, Alexei. Parabéns! Quero aprender francês por que, apesar de morar na parte anglofona, acho que é muito importante todo nós darmos nossa contribuição para que o Canadá seja um país verdadeiramente bilingue e multicultural de leste a oeste!

    Obrigada por compartilhar a playlist! 😀

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