Qual  língua falar em casa?

Língua, ou idioma vai muito além de simplesmente fazer um curso, participar de uma imersão ou de um intercâmbio.

Olá seja bem-vindo a mais um Momento Lindo.

Quando você vem morar aqui no Canadá é normal que você tenha aquele já tão falado período de aprendizado ou de aperfeiçoamento do idioma.

Logo que você é capaz de se comunicar você vai perceber uma certa mistura dos idiomas. Expressões, verbos em francês “aportuguesados”, inversão na construção das frases e um português meio tosco. Coisas do tipo “eu vou ir na sua casa!”

Nos nossos filhos isso é ainda mais evidente. E como eu disse em “Porque eu tenho de me dedicar aos meus filhos“, nós temos de ajudar.

Mas essa mistura de idiomas deve ser analisada com muita calma pois muitos são os cenários possíveis e a ideologias diversas.

Skype e família longe

Este é o primeiro e grande argumento de defesa dos que dizem que a língua a se falar em casa deve ser o português.

Em nosso mundo conectado de hoje, falar com a família e amigos é algo quase que corriqueiro. Muitos amigos e amigas são conectados com o Brasil pelos mais variados apps de mensagens mas sempre chega uma hora em que vovô e vovó precisam falar com os netinhos.

E como fazer se eles não falam português? Afinal, “é tão difícil essa distância”.

É aqui que começa o debate. Muitos pais tem a tendência de se preocupar muito com a mistura das línguas e não com o aprendizado em si e acreditam que a solução é falar o outro idioma em casa.

Referência

Tudo depende da idade do seu pequeno ou pequena. A relação com a língua não é a mesma para crianças as nascidas no Brasil, para aquelas que chegaram aqui pequenas ou para aquelas acima dos 5 anos. Vários fatores influenciam.

Entrar na escola ou na creche, se os pais conversam muito com os filhos em casa, se a TV vai ficar apenas nos idiomas canadenses e é claro, do temperamento da própria criança.

Três conceitos são importantes aqui:

  • A criança vai acabar falando o idioma. É apenas uma questão de tempo
  • A criança tem como referência o ambiente que ela encontra no começo do aprendizado.
  • É bem difícil reverter um hábito formado na base do aprendizado

Ao entrar em contato com a sociedade canadense, seu filho ou filha vai falar o idioma com que tiver contato. Ela pode até falar uma outra língua.

Meu filho pequeno ficou em creches de pessoas de origem árabe e chegou em casa falando algumas palavras.

Adolescentes que tem grupos de amigos de uma outra origem, tal como os espanofônicos, vão acabar aprendendo espanhol.

Tudo é uma questão de referências e de necessidade.

Minha experiência

No meu caso, adotamos o princípio de que falar o português era importante.

Era importante por causa da família longe. Era importante pois achamos que dar uma outra língua de saída aos nossos filhos era um benefício. E no pior caso, quebraria a barreira de conviver com 2 idiomas, talvez 3, talvez 4.

Eu fiz 2 experiências distintas com meus dois filhos. E o resultado foi essencialmente o mesmo.

Como nosso primeiro, eu evitei usar o francês e o inglês.

Criamos uma regra que existe até hoje e acho que sempre vai existir. Em casa só falamos português a não ser que tenha um estrangeiro conosco (alguém que não fale português).

No começo tudo para ele era em língua portuguesa. A TV, as músicas, as historinhas, o que falávamos em casa.

Como de se esperar ele aprendeu português primeiro e quando chegou na creche teve de se adaptar. Todos falavam francês e entendiam o francês. Menos ele.

Nas primeiras semanas foi um pouco difícil pois ele teve de aprender a entender e depois a falar. E o que acontecia quando ele queria água? Ele dizia “água”. Na verdade era “aga”!

Isso poderia gerar algum estresse para alguns pais que tem a tendência de trocar de idioma para ajudar o filho a se comunicar.

Fomos pacientes e deixamos que o tempo se ocupasse. Em pouco tempo, tínhamos um pequeno bilíngue.

Ele não sabia que falava duas línguas. Mas sabia que em casa com os pais era em português e que quando o deixávamos “chez Sabrina” ele ia ter de falar francês.

Referência

Com nosso segundo filho relaxamos um pouco por duas razões. Nosso primeiro, com quase 3 anos já falava as duas línguas e era a hora de ensiná-lo a traduzir. A fazer a equivalência. Era necessário usar o francês em casa.

A segunda razão era que ele estava imerso na cultura, então já havíamos liberado a TV local e não iríamos fechar tudo de novo.

O segundo cresceu então num ambiente onde falávamos português em casa (a regra continua), onde a referência estava mantida (com os pais fala em português) mas a TV era misturada, as cantigas da escola e algumas expressões de meu primeiro eram em francês.

O aprendizado foi diferente. Ele misturou mais no começo e demorou um pouco mais para aprender as duas línguas.

De novo fomos pacientes. Não forçamos nem tentamos antecipar as coisas. E ele pra variar, aprendeu os dois!

Casais com multiplos idiomas

Em nosso caso a decisão pode parecer simples. Tanto eu quanto minha esposa falamos português.

Mas o que acontece quando num casal, cada um fala um idioma diferente?

É complexo.

Primeiro porque a língua falada em casa não deve ser o português. Ao menos não no início.

Neste caso, se você deseja que a criança fale as duas línguas, fale a sua e deixe que sua metade fale a outra.

E mantenha. Se fizer isso a criança vai criar referência. Ela vai saber qual língua falar com cada um.

Pela experiência de muitos casos que acompanhamos, se a crianças de pais brasileiros conversam com elas em outro idioma que não seja o português, elas vão resistir ao português e depois será difícil de reverter a situação.

E isso acontece também no nível das palavras.

Se você fala em outro idioma uma palavra porque seu filho está mais acostumado a ela, a referência para aquela palavra vai ser naquele idioma e ela não vai ter nenhuma vontade de aprender a mesma coisa em português.

Minha DICA principal é: seja paciente!

Em segundo: favorize o bilinguismo. Talvez seja útil para o futuro.

Sucesso!

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VÍDEO: Inglês ou francês

Written by Berg Lindo

Berg Lindo

Gerente de projetos de informática, co-fundador do PoDeixar e do Canadá Agora, adora cinema, formula 1 e principalmente ajudar as pessoas com suas experiências. Apesar dos olhinhos meio puxados nada tem de oriental. Dizem que é descendente de índio.