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Meu maior erro ao vir para o Canadá…

… foi ter cursado um programa de Interactive Media Design logo ao chegar, e já como residente permanente. E tentado apostar nessa carreira.

Muitas pessoas me perguntam sobre esse curso. Têm intenção de vir para cursá-lo, esperando ter boa empregabilidade ao se formar. Mas não é bem assim. Não recomendo a ninguém sem uma sólida experiência prévia vir para tentar recomeçar a vida nessa área. Ainda mais após os 30 anos.

Algumas pessoas poderão fazer comentários falando de histórias de sucesso. Sim, pode até ser, mas possivelmente esses casos serão exceções.
Eu deveria ter feito uma reflexão maior quando me matriculei no college, logo após minha chegada. Estava ansioso para me qualificar em algo que imaginava gostar e ter uma nova carreira que me desse uma maior empregabilidade. Ignorei totalmente a regra de ouro: para quem não imigra jovem, o melhor é apostar no que você já tem experiência prévia por mais que o mundo ao redor diga que não vai dar certo.

Eu deveria ter apostado na continuidade da minha carreira acadêmica em Musicologia, por mais que a nacionalidade brasileira do meu doutorado não me fizesse competitivo na América do Norte (por pura ignorância das pessoas daqui a respeito da qualidade que pode haver na Academia brasileira).

As carreiras na área tech são dominadas por jovens, e o Canadá ainda possui uma cultura que de certa forma discrimina quem tem mais de 30 anos. O país ainda considera uma vida com um script rígido onde acredita-se que aos 45 anos a pessoa esteja com a carreira já no piloto automático, começando a vislumbrar a aposentadoria e com filhos entrando na universidade. Recomeços são raros, e vistos com certa estranheza. Claro: sempre daquela forma silenciosa que é comum por aqui, mas muitas vezes dói mais do que se tudo fosse falado abertamente.

O programa que cursei vivia uma crise de identidade já naquele momento. Começou ainda refletindo um tempo onde se produzia multimídia em CD-ROM e teve sucessivas mudanças de currículo para transformar-se num programa de web design com algumas disciplinas de vídeo e design gráfico. Porém, há um programa de web developer onde esse conteúdo é visto com mais profundidade. Há um programa de design gráfico muito bom. E também um programa de vídeo e fotografia. Os profissionais formados nesses programas sairão melhor preparados num mercado que valoriza especializações mais do que o conhecimento global.

No college viviam falando que havia muitos empregos nessa área, mas as coisas não são bem assim. Há vagas, mas há muita competição. Além dos profissionais canadenses, o país atrai muitos estudantes internacionais supertalentosos e os empregadores são inundados por portfólios de enorme qualidade sempre que abrem vagas. Sendo que em certos casos os empregadores são contagiados pela possibilidade de contratar um estudante internacional, ainda que ilegalmente (mas pagando menos do que o salário mínimo por hora), mas contando com um trabalho de alta qualidade. Ah, como eu sei disso? Sei porque vi acontecer diante dos meus olhos.

Muitos formados escolhem o caminho do trabalho autônomo, e aí os desafios são redobrados. Porque neste momento todos querem ter um site muito bem planejado. Vídeos maravilhosos no YouTube. Um projeto gráfico de alta qualidade… Mas muitos não fazem a menor ideia de como é o trabalho dos designers. Imaginam que estão na frente de super-heróis que captarão no ar tudo o que desejam e farão projetos maravilhosos… Mas não é bem assim. Não há glamour no trabalho de um designer. Há, sim, infindáveis e pessimamente remuneradas horas de trabalho duro para agradar a um cliente. Que (tal qual os empregadores) muitas vezes não consegue comunicar o que deseja mas não hesita em dizer que não gostou dos protótipos apresentados. O que, convenhamos, não ajuda em muito para a conclusão satisfatória de um projeto.

Cuidado com as carreiras da moda e as histórias de sucesso, principalmente vindas de profissionais da indústrias tech, a respeito da empreitada canadense. Eles podem ter chegado com uma boa experiência profissional. Por isso, da mesma forma que eles, o melhor para você e também para mim é parar de sonhar e investir naquilo que a gente já sabia fazer, já tinha experiência. E assim pode fazer a diferença frente à competição.

Alexei Michailowsky

Written by Alexei Michailowsky

Músico, Doutor em Musicologia e designer de mídia interativa, vivendo em Ottawa desde 2015. Acredito que o sonho canadense não existe, mas sim uma multiplicidade de sonhos diferentes que convergem para o mesmo lugar!