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Motivos de sobra

LONELY TRAVELER (JD Hancock)
http://photos.jdhancock.com/photo/2010-02-03-224927-lonely-traveler.html

Têm algumas perguntas que as pessoas sempre te fazem quando descobrem que você saiu do Brasil para morar em um lugar tão distante quanto o Canadá: “você sente fanta da família? E seu amigos? Seus pais não foram contra? Por que você largou tudo o que você já tinha por lá?” Mas sem dúvida, aquela que mais aparece é sempre a mesma: “por que você saiu do Brasil?” Sempre que eu escuto isso me vêm no mínimo uma meia-dúzia de respostas prontas mas que não expressam de fato o que eu penso. Até hoje.

Pouco antes do meu filho nascer parece que eu passei a ver o mundo à minha volta de uma forma diferente. Eu me sentia como alguém que tinha subido uma montanha muito alta, olha pra baixo e se dá conta que poderia ter caído e se arrebentado inteiro. Eu nunca fui santo; tenho certeza de que ninguém foi. Já fiz muita besteira e fui muito inconseqüente e não me orgulho de nada disso (mesmo que muitas dessas situações hoje me façam rir). É claro que eu não quero que meu filho faça as mesma coisas que eu fiz, principalmente porque eu acho que dei muita sorte de ter chegado vivo até aqui. Mas além disso, tinha algo mais. Algo além das minhas ações que me incomodava muito mais. Não eram os políticos, não era o trânsito ou a violência, nem os preços absurdos ou a política fiscal. Não era meu emprego nem meus chefes e nem as contas de luz e água. Não, meu queridos. A razão de eu ter deixado meu país era a principal causa de todos esses problemas: eram as pessoas. Encontrei um artigo há pouco tempo atrás que fala exatamente do que eu to falando. Antes de me xingar, quando você puder, dê uma lida nele. Você vai entender o que eu quero dizer com isso. (logo abaixo)

Faz seis anos que eu não volto ao Brasil, principalmente por causa da grana: a passagem é muito cara pro tempo que eu tenho de férias (pouco menos de duas semanas). Nunca cortei meus laços definitivamente e mesmo que seja um hábito que eu evito sempre que possível, de uma maneira ou de outra eu acabo lendo notícias de lá. Nos últimos anos parece que a inquietude das pessoas tem aumentado bastante e realmente tem algo acontecendo por lá. Sei lá se é uma revolução ou só mais um movimento que não dar em lugar algum, mas é como se as pessoas estivessem chegando em um nível onde o “saco já estourou faz tempo”. Eu não sou hipócrita e não vou dizer que eu gostaria de estar lá pra ver essa mudança. Eu passei anos stressado, deprimido, realmente mal porque eu não conseguia ignorar as coisas que aconteciam à minha volta. Vim embora de lá por vontade própria sabendo que eu estaria ajudando muito mais ficando longe e parando de reclamar do que tentando fazer as coisas acontecerem. No fundo, no fundo, eu espero que isso as coisas melhorem. Claro! Eu tenho amigos e família que moram por lá que eu não quero ver sofrendo. Mas uma mudança como essa não acontece simplesmente depondo quem está no poder ou elegendo alguém diferente. Não. Essa mudança só vai acontecer quando as pessoas deixarem de estacionar em fila dupla, de fazerem “só um pouquinho” de barulho até mais tarde, de esperarem que o outro faça o seu trabalho por você, de querer se dar bem” às custas do outro, talvez nesse dia, as mudanças aconteçam de verdade.

O Canadá não é perfeito. Aliás, nenhum canto do planeta é. O ser humano é cheio de problemas, não importa em que lugar do mundo ele esteja. Eu entendo que as razões que levaram as pessoas a serem como são hoje vêm de muito tempo atrás e que isso é mais um mecanismo de auto-defesa e de sobrevivência do que outra coisa, mas não é por isso que tem que ser sempre assim. Eu me considero um idiota à brasileira, mas no bom sentido. Alguém que nasceu lá, que conheceu pessoas maravilhosas e lugares fantásticos, que conheceu a cultura de vários Estados e que aprendeu a apreciar o que eles têm de bom. Mesmo que alguns dias eu veja ou ouça coisas que me fazem querer nunca ter nascido lá, eu nunca vou poder ignorar de onde eu vim e que tenho parte da culpa de como as coisas estão lá. Não é uma questão de orgulho ou de vergonha, mas de saber o como tirar o que há de bom de tudo e contribuir para algo melhor.

Eu não to aqui pra mudar ninguém e cada um sabe o que busca pra sua vida. Se eu puder ajudar de alguma forma, eu vou estar por aqui. Você sabe onde me encontrar e coisa e tal. E eu prometo que vai ser a última vez que você vai me ouvir falando desse assunto de novo ^_^

Um grande abraço!


Perfeito Idiota à Brasileira

(Por Adriano Silva, jornalista e publicitário)

Ele não faz trabalhos domésticos. Não tem gosto nem respeito por trabalhos manuais. Se puder, atrapalha quem pega no pesado. Trata-se de uma tradição lusitana, ibérica, reproduzida aqui na colônia desde os tempos em que os negros carregavam em barris, nos ombros, a toilete dos seus proprietários, e eram chamados de “tigres” – porque os excrementos lhes caíam sobre as costas, formando listras. O Perfeito Idiota Brasileiro, ou PIB, também não ajuda em casa. Influência da mamãe, que nunca deixou que ele participasse das tarefas – nem mesmo pôr ou tirar uma mesa, nem mesmo arrumar a própria cama. Ele atira suas coisas pela casa, no chão, em qualquer lugar, e as deixa lá, pelo caminho. Não é com ele. Ele foi criado irresponsável e inconsequente. É o tipo de cara que pede um copo d’água deitado no sofá. E não faz nenhuma questão de mudar. O PIB é especialista em não fazer, em fazer de conta, em empurrar com a barriga, em se fazer de morto. Ele sabe que alguém fará por ele. Então ele se desenvolveu um sujeito preguiçoso. Folgado. Que se escora nos outros, não reconhece obrigações e adora levar vantagem. Esse é o seu esporte predileto – transformar quem o cerca em seus otários particulares.

O tempo do Perfeito Idiota Brasileiro vale mais que o das demais pessoas. É a mãe que fura a fila de carros no colégio dos filhos. É a moça que estaciona em vaga para deficientes no shopping. É o casal que atrasa uma hora para um jantar com amigos. As regras só valem para os outros. O PIB não aceita restrições. Para ele, só privilégios e prerrogativas. Um direito divino – porque ele é melhor que os outros. É um adepto do vale-tudo social, do cada um por si e do seja o que Deus quiser. Só tem olhos para o próprio umbigo e os únicos interesses válidos são os seus.

O PIB é o parâmetro de tudo. Quanto mais alguém for diferente dele, mais errado esse alguém estará. Ele tem preconceito contra pretos, pardos, pobres, nordestinos, baixos, gordos, gente do interior, gente que mora longe. E ele é sexista para caramba. Mesma lógica: quem não é da sua tribo, do seu quintal, é torto. E às vezes até quem é da tribo entra na moenda dos seus pré-julgamentos e da sua maledicência. A discriminação também é um jeito de você se tornar externo, e oposto, a um padrão que reconhece em si, mas de que não gosta. É quando o narigudo se insurge contra narizes grandes. O PIB adora isso.

O PIB anda de metrô. Em Paris. Ou em Manhattan. Até em Buenos Aires ele encara. Aqui, nem a pau. Melhor uma hora de trânsito e R$ 25 de estacionamento do que 15 minutos com a galera do vagão. É que o Perfeito Idiota tem um medo bizarro de parecer pobre. E o modo mais direto de não parecer pobre é evitar ambientes em que ele possa ser confundido com um despossuído qualquer. Daí a fobia do PIB por qualquer forma de transporte coletivo.

Outro modo de nunca parecer pobre é pagar caro. O PIB adora pagar caro. Faz questão. Não apenas porque, para ele, caro é sinônimo de bom. Mas, principalmente, porque caro é sinônimo de “cheguei lá” e “eu posso”. O sujeito acha que reclamar dos preços, ou discuti-los, ou pechinchar, ou buscar ofertas, é coisa de pobre. E exibe marcas como penduricalhos numa árvore de natal. É assim que se mostra para os outros. Se pudesse, deixaria as etiquetas presas ao que veste e carrega. O PIB compra para se afirmar. Essa é a sua religião. E ele não se importa em ficar no vermelho – preocupação com ter as contas em dia, afinal, é coisa de pobre.

O PIB também é cleptomaníaco. Sua obsessão por ter, e sua mania de locupletação material, lhe fazem roubar roupão de hotel e garrafinha de bebida do avião e amostra grátis de perfume em loja de departamento. Ele pega qualquer produto que esteja sendo ofertado numa degustação no supermercado. Mesmo que não goste daquilo. O PIB gosta de pagar caro, mas ama uma boca-livre.

E o PIB detesta ler. Então este texto é inútil, já que dificilmente chegará às mãos de um Perfeito Idiota Brasileiro legítimo, certo? Errado. Qualquer um de nós corre o risco de se comportar assim. O Perfeito Idiota é muito mais um software do que um hardware, muito mais um sistema ético do que um determinado grupo de pessoas.

Um sistema ético que, infelizmente, virou a cara do Brasil. Ele está na atitude da magistrada que bloqueou, no bairro do Humaitá, no Rio, um trecho de calçada em frente à sua casa, para poder manobrar o carro. Ele está no uso descarado dos acostamentos nas estradas. E está, principalmente, na luz amarela do semáforo. No Brasil, ela é um sinal para avançar, que ainda dá tempo – enquanto no Japão, por exemplo, é um sinal para parar, que não dá mais tempo. Nada traduz melhor nossa sanha por avançar sobre o outro, sobre o espaço do outro, sobre o tempo do outro. Parar no amarelo significaria oferecer a sua contribuição individual em nome da coletividade. E isso o PIB prefere morrer antes de fazer.

Na verdade, basta um teste simples para identificar outras atitudes que definem o PIB: liste as coisas que você teria que fazer se saísse do Brasil hoje para morar em Berlim ou em Toronto ou em Sidney. Lavar a própria roupa, arrumar a própria casa. Usar o transporte público. Respeitar a faixa de pedestres, tanto a pé quanto atrás de um volante. Esperar a sua vez. Compreender que as leis são feitas para todos, inclusive para você. Aceitar que todos os cidadãos têm os mesmos direitos e os mesmo deveres – não há cidadãos de primeira classe e excluídos. Não oferecer mimos que possam ser confundidos com propina. Não manter um caixa dois que lhe permita burlar o fisco. Entender que a coisa pública é de todos – e não uma terra de ninguém à sua disposição para fincar o garfo. Ser honesto, ser justo, não atrasar mais do que gostaria que atrasassem com você. Se algum desses códigos sociais lhe parecer alienígena em algum momento, cuidado: você pode estar contaminado pelo vírus do PIB. Reaja, porque enquanto não erradicarmos esse mal nunca vamos ser uma sociedade para valer.

Revista SuperInteressante, Edição 335 – Julho/2014 – Pgs. 24-25

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Masaru Hoshi

Written by Masaru Hoshi

A última coisa que você vai imaginar olhando pra cara dele é que ele é japonês. Engenheiro de software e co-fundador do Canada Agora. Mora no Canadá desde 2008 e é um apaixonado por viagens.

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