Quando a gente chega no Canadá, acaba relaxando e pára de estudar inglês ou francês. Em geral nosso vocabulário tende a estacionar por conta do meio de trabalho/convívio e o dia-a-dia não é suficiente para continuar evoluindo. Com o tempo a gente acaba entrando num ciclo vicioso: não estudo porque não tenho tempo; quando tenho tempo tem outras coisas que me impedem de estudar.

Estacionei no tempo

Eu achava que o mero fato de estar morando no exterior seria o suficiente para aprender tudo “por osmose”. Afinal de contas, eu estaria imerso no idioma a maior parte do dia. Trabalho, TV, notícias, amigos e tudo o mais, tudo em inglês ou francês. Parecia perfeito.

O que acabou acontecendo comigo não foi bem assim. Como eu não vim estudar aqui e caí direto no mercado de trabalho, eu acabei ficando num universo um pouco restrito. É claro que meu vocabulário melhorou. Eu aprendi gírias, expressões e palavras que sequer eu sabia pra que serviam. Também fiquei muito mais confortável e com o tempo até aprendi a fazer piadinhas. Mas eu percebia que em alguns casos eu ainda estava bem perdido. Ir em lojas de material de construção, mecânicas, até na escola do meu filho as coisas as vezes ficavam mais complicadas. Tudo porque o vocabulário era bem específico desses lugares.

Por que continuar estudando?

Por mais acolhedor que seja seu ambiente de trabalho, seus vizinhos, amigos, etc, você sempre vai ser um imigrante. Mesmo que sua aparência não entregue isso, quando você abrir a boca isso vai ficar evidente. Ou seja: isso é uma desvantagem. A melhor maneira de compensar isso é estudando e sempre buscar se superar.

Há uns 15 anos eu tive primeiro chefe gringo. Ele era americano e morava nos Estados Unidos. Diariamente tínhamos conferências via telefone e trocávamos emails. Mesmo morando no Brasil, era fácil notar que meu inglês estava melhorando. Um dia, já com um pouco mais de intimidade com ele, perguntei se valia a pena eu fazer um curso de inglês língua segunda para melhorar meu inglês. Ele foi direto e disse: “Masaru, seu inglês é bom. O que você precisa é vocabulário. Leia, mas fuja de livros técnicos e ‘modinhas’. Procure os clássicos; vá atrás do que se ensina nas escolas”.

A ideia parecia muito estranha pra mim e parecia que ele só tinha dito isso pra se livrar de mim. Demorou um pouco para eu entender do que ele estava falando, mas hoje faz todo o sentido. Assim como fazemos especializações, cursos superiores, certificações, etc, temos que dedicar tempo também para melhorar o idioma.

Em japonês diz-se Kyudö Mugen (究道無限), algo como “o caminho dos estudos é infinito”. A ideia é que sempre vamos ter algo a aprender e sempre tem espaço para melhorar e se aprimorar. E obviamente, isso vale também para o estudo de idiomas. Conforme meu chefe me disse, ler é um excelente exercício e custa muito pouco, ainda mais nos dias de hoje. E não é preciso investir em coisas novas. Existem excelentes obras de domínio público que só tem a enriquecer nosso vocabulário.

Pra terminar, um conselho: por mais que você estude, se dedique e se esforce, não tenha medo de admitir que errou ou que não sabe tudo. A humildade também é um exercício.

Exercitando o cérebro

Steve, thank you very much for your advice. Sorry it took so long for me to recognize it.

Written by japa

japa

Engenheiro de software e co-fundador do PoDeixar. Mora no Canadá desde 2008 e é um apaixonado por viagens. Apesar do apelido, a última coisa que você vai imaginar olhando pra cara dele é que ele é japonês.