No dia 21 de setembro deste ano, Ottawa foi atingida por vários tornados de categorias diferente, deixando rastros de destruição nunca antes vista por quem mora aqui. Apesar de algumas pessoas terem sido levadas para hospitais com danos médios e graves, felizmente não houve perdas de vidas.

Eu pensei várias vezes em escrever sobre o que eu vi e vivi aqui, mas sempre esbarrava em algum contratempo. Enquanto eu passava pelo facebook, vi um texto que uma amiga minha, Susana Alfradique, que mora há vários anos na região de Ottawa, publicou na sua timeline. Ela sintetizou e refletiu bem os sentimos que eu tive em relação a este episódio e eu senti a necessidade de compartilhar com vocês.


Aqui aguardando meu voo para ir visitar meus pais no Brasil, começo a fazer uma retrospectiva dos últimos 11 anos e principalmente da última semana aqui em Ottawa.

No dia 21/09/2018 aconteceu um tornado aqui em Ottawa e pude ter certeza de que escolhi o melhor lugar do mundo para viver, criar meus filhos, netos e envelhecer.

Por volta das ‪4:45 PM‬ recebi um alerta de tornado no meu celular. Como estava ocupada, não dei a menor importância.

Só fui perceber que era mais sério quando acabou a energia elétrica e começamos a receber mensagens de amigos perguntando se estávamos bem.

E descobri que realmente tinha acontecido o tornado em algumas áreas pontuais e que a fase mais destrutiva do tornado de categoria EF-2 com ventos de 220 km/h durou apenas 2 minutos. Graças a Deus ninguém morreu, umas 30 pessoas ficaram feridas, em torno de 100 casas e apartamentos ficaram destruídos, deixando umas 1500 pessoas desabrigadas.

Caminho dos tornados que passaram por Ottawa e Gatineau

E umas 120 mil casas em diversas áreas da cidade ficaram sem eletricidade (dos males o menor), inclusive a minha.

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Daí no dia seguinte começamos a ver o que é senso de comunidade, solidariedade e educação.

Como estávamos sem luz, todos os sinais estavam desligados, todos então viraram “4 way stop”, que quem chega primeiro sai primeiro, parecia um balé, super organizado, não se escutava uma buzina, todos calmamente esperando a sua vez…em absolutamente todos os cruzamentos.

Restaurantes e super mercados que tinham eletricidade, fogão a gás ou geradores começaram a distribuir refeições, café da manhã, almoço e jantar gratuitamente pois as pessoas não podiam cozinhar já que os nossos fogões são elétricos (pelo menos a maioria é).

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As pessoas que tinham eletricidade, gerador ou fogão a gás, começaram a distribuir comida para a comunidade… todos se juntaram, com comida grátis para todos, que aguardavam sua vez numa fila, sem briga, sem cotovelada, sem ninguém guardar lugar pro outro.

Hotéis e academias abriram suas instalações para que as pessoas pudessem tomar banho.
Os poucos postos de gasolina que tinham eletricidade abaixaram os preços dos combustíveis.
Hotéis para cachorros e gatos liberaram diárias grátis para quem teve a casa afetada e não tivesse onde deixar seu animal.

Nossa energia voltou em 24 horas, mas algumas casas só em 52 horas.

Bateu uma pessoa desconhecida na minha porta oferecendo que ele tinha um gerador, mas que como a energia dele tinha voltado não estava mais precisando, caso alguém precisasse. Agradecemos pois a nossa também já tinha voltado, então ele saiu batendo na vizinhança oferecendo.

Foram tantas coisas lindas que a lista ficaria imensa! Um senso de comunidade, de solidariedade tão grande que me deixou encantada, feliz e esse tornado que trouxe tanta destruição, nos mostrou que Ottawa (ou o Canadá), com esse senso de comunidade e respeito ao próximo faz toda a diferença na vida em sociedade, foi a melhor escolha que fizemos ‪há 11‬ anos, quando saímos do Brasil, deixando parentes e amigos queridos.

Que estar longe da família dói muito, principalmente agora que meus pais estão mais idosos e precisando de mais atenção, esse é o preço a pagar por uma vida com respeito, dignidade e principalmente a paz que temos aqui.

Susana e seu marido Maurício moram há 11 anos em Ottawa.

Apesar da cidade ter voltado a funcionar normalmente, isso não muda o fato que muita gente perdeu tudo o que tinha e ainda está precisando de ajuda. Existem várias organizações dedicadas a receber doações para os necessitados. Segue aqui uma lista delas:

Nós gravamos um Drops (que acabou ficando com duas partes) falando sobre as minhas impressões sobre o caso, que você consegue assistir aqui:

Parte 1

Parte 2

Masaru Hoshi

Written by Masaru Hoshi

A última coisa que você vai imaginar olhando pra cara dele é que ele é japonês. Engenheiro de software e co-fundador do Canada Agora. Mora no Canadá desde 2008 e é um apaixonado por viagens.

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