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Canadá: longe de ser perfeito

Outro dia desses acompanhei mais uma uma daquelas discussões sem fim sobre o Brasil ser melhor que o Canadá. Apesar de ser um assunto sempre recorrente, desta vez foi realmente engraçado ler sobre tudo aquilo porque não fazia muito tempo que havíamos gravado um programa onde analisávamos nossas vidas antes e depois de chegar no Canadá; as dificuldades e as surpresas que tivemos e o que mudou na nossa percepção era tema básico. Gravar o programa, como sempre, foi muito bacana. Não só porque a gente sabe que sempre vai ajudar alguém mas também porque foi um exercício muito bom que eu recomendo a todo mundo fazer com uma certa freqüência, especialmente pra quem acha que está no mesmo lugar e nada mudou na sua vida.

Ao reler as opiniões das pessoas e refletir sobre minha própria forma de pensar, uma das coisas que eu notei foi como hoje eu já me sinto muito menos encantado com a vida aqui e muito mais pragmático. Não que eu não veja mais graça nas coisas, mas a euforia dos primeiros anos deu lugar a uma visão mais ponderada das coisas que me permite enxergar as coisas sem nenhum prisma de patriotismo cego, mágoa de amores mal resolvidos ou apaixonites agudas por qualquer motivo. Algo que inevitavelmente deve acontecer com todo mundo depois de algum tempo.

Quando eu ainda era pequeno, lembro do meu pai me falar que ninguém nunca deixa de ser imigrante; não importa quantos anos você viva no país pra onde se mudou, nunca vai entender todas as razões de ser das coisas nesse lugar.  Sendo ele próprio alguém que imigrou pra um país bem diferente de onde ele veio, ele sabia do que estava falando. Algumas dezenas de anos depois, aquilo agora parece fazer sentido pra mim. Não ter crescido em um lugar te faz perder nuances muito importantes da natureza de lá, seja sobre a culinária, os relacionamentos ou mesmo a estrutura política e econômica do país. Esse privadamente deve ser o maior desafio de quem decide se expatriar: tentar compreender como e porquê as coisas são como são naquele lugar e ainda assim manter sua identidade.

Existe uma grande diferença entre compreender e concordar, mas esse é um assunto pra outro dia. Hoje eu queria tentar focar um pouco de como anda a realidade do Canadá. São fatos bem amplos que, como tais, dão margem a diversas interpretações que cada um deve tentar analisar da melhor maneira possível. Abra sua mente!

Alberta, a galinha dos ovos de ouro

Já não é novidade pra ninguém que Alberta tem se tornado o principal destino de milhares de recém chegados e de muitos outros que já moram no Canadá. Mas isso parece estar indo muito além do que a gente imagina.

Graças às oportunidades criadas com a exploração do petróleo na região, vagas de emprego diretos ou indiretos borbulham aos montes: são engenheiros, técnicos de todos os tipos, especialistas em telecomunicações, finanças e mais uma infinidade de outras posições.

Mas, até recentemente ninguém tinha noção do real impacto dessa explosão de oportunidades e negócios na estrutura econômica do resto do país. Enquanto Alberta cresce aceleradamente, as províncias do atlântico não têm sido capazes de crescer de maneira suficiente para manter sua estrutura e têm encolhido em um ritmo inquietante. Em províncias como New Brunswick, por exemplo, a população ativa na faixa dos 15 a 65 anos encolhe em média 1% por ano e ao que tudo indica esse número deve ser ainda maior nos próximos anos. Sem grandes atrativos econômicos e com investimentos muito mais modestos, a solução das pessoas têm sido realmente deixar suas casas e partir para onde o sul parece brilhar mais forte. Já é muito comum ouvir a piadinha do “o último que sair apaga o farol” por conta desse êxodo.

Segundo a projeção da Bloomberg, Alberta deve ultrapassar Québec e acabar se tornando a segunda maior economia do país dentro de três anos ou menos, ainda que a população da província seja menor que a província francófona. Em épocas onde a média nacional de criação de empregos foi modesta, a cidade de Edmonton sozinha foi responsável por ter criado 40% das vagas do país.

Mas nem tudo são flores. A fragilidade da economia das prairies tem ficado evidente com a recente onda da queda do preço do barril de petróleo. De acordo com a International Energy Agency, se a tendência continuar, mais de 25% dos projetos canadenses que envolvem a extração do petróleo devem ser afetados se o preço continuar a cair. (Até a data de publicação deste artigo, o valor do litro de gasolina já tinha despencado de 1.46/l no período de maior alta e chegado a 1.16/l).

O outro lado da moeda

Apesar da euforia com o potencial de Alberta, a extração de petróleo tem outro lado raramente observado pelas pessoas: o impacto ambiental.

Além de ser um dos métodos mais caros de produção de petróleo por barril, os bilhões de dólares gerados na região do tar sands escondem uma catástrofe ambiental em constante crescimento e muito em breve um caminho que pode não ter volta. Diferente dos poços de petróleo e bacias petrolíferas em águas profundas, o “ouro negro” canadense é extraído do betume, uma substância derivada de seres vivos pré históricos e com um potencial para revolucionar o mundo muito maior do que o silício representou para a indústria eletrônica.

O tar sands em si é uma região cujo solo é uma mistura de sílica, minerais, barro, água e o tão precioso betume que é o elemento principal de todas as operações nos locais. O que pouca gente sabe é que o custo da produção de petróleo bruto a partir do betume é altíssimo tanto financeiramente quanto em termos de impacto para a região. É preciso escavar cerca de duas toneladas de areia e usar cerca de três barris de água limpa dos rios para produzir um barril de piche betuminoso, sem falar na quantidade de energia necessária que chega a ser quase 1/3 do que seria produzido com o subproduto daquele mesmo barril. A exploração tem seu foco mais intenso na região de Peace River, Cold Lake e do Athabasca.

Agora, faça as contas: por dia, o Canadá exporta cerca de 1 bilhão de barris de petróleo para os Estados Unidos. Quanto já foi usado de água limpa e quanto já foi destruído na região? Isso sem falar da questão do oleoduto que está sendo construído e que vai cruzar o Canadá e os Estados Unidos transportando esse produto.

Mesmo figurando sempre em listas de melhores lugares para se viver, em um critério o Canadá tem se mostrado um péssimo modelo mundial: nos seus esforços em combater as alterações climáticas globais. Este ano o Governo Federal avisou que não será capaz de manter sua meta para 2020 do acordo internacional de Kyoto sobre emissão de gazes, do qual inclusive retirou sua participação.

Segundo o primeiro ministro Stephen Harper, ele não vai sacrificar a competitividade econômica do país – e ele fala sobre a extração de óleo e gás natural – em função de ganhos ambientais. Talvez a questão do meio ambiente só não seja mais grave por causa da menor população e a menor quantidade de indústrias de manufatura. Contudo, mesmo sendo um país onde a qualidade do ar e das águas está muito acima de países do OECD, incluindo a França, o Japão e os Estados Unidos, o Canadá deve muito em termos de uso consciente dos recursos naturais.

Corrida eleitoral

Há um ano das eleições federais, o atual primeiro ministro, Stephen Harper, sofria com sua popularidade e recebia criticas cada vez maiores da população, principalmente sobre ser um fantoche dos Estados Unidos e de que estaria destruindo a herança do Canadá de ter uma política social e igualitária para toda a população, favorecendo os interesses de quem acabar “pagando mais”. Isso sem falar na pressão que estaria sofrendo por não aumentar os investimentos em segurança, assunto ainda em pauta com a morte dos soldados em Quebec e Ottawa.

Para tentar recuperar sua popularidade, o governo resolveu lançar medidas fiscais que favoreceriam o cidadão. Uma delas foi o aumento do valor dado às famílias com filhos. Até recentemente esse benefício era dado a famílias com filhos até 5 anos de idade, mas com a recente mudança além desse valor passar de 100$ para 160$ por criança, o benefício passa a ser até os 18 anos. Outra mudança significativa é a possibilidade de transferir parte da renda recebida por um cônjuge para outro com menor renda com o objetivo de reduzir a carga tributária familiar, uma medida prometida há alguns anos e que acabou sendo implementada coincidentemente a um ano das eleições para primeiro ministro. No fim das contas, a estratégia parece ter dado certo e a popularidade do atual primeiro ministro disparou ” magicamente “, privando que política é política em qualquer lugar.

Mercado e empregos

Todo mundo fala sobre uma bolha imobiliária mas ninguém sabe quando ou como isso deve terminar. O fato é que ela existe e basta acompanhar o aumento do valor dos imóveis nos últimos 10 anos e comparar com a inflação e o poder aquisitivo das pessoas. É possível ver mercados regionais onde o preço de uma casa passou de $120 mil para $300 mil enquanto o salário médio teve um reajuste de 12% durante o mesmo período. Por mais que os juros médios para financiamento girem em torno de 2% a 3.5% e uma inflação “controlada” a especulação imobiliária faz cada vez mais pessoas adiarem cada vez mais seu plano de comprar um imóvel.

A oferta de imóveis continua tão alta quanto os preços, mas não parece haver tanta gente comprando como há 5 anos atrás. Mesmo com o banco central garantindo taxas baixas e competitivas, os preços atuaram e não é raro ver placas de casas à venda ficando penduradas por mais de 6 meses quando três meses era a média para vender um imóvel.

Ainda que com todos esses efeitos, algumas indústrias ainda estão em franco crescimento e não demostram sinais de desaceleração tão cedo. O entretenimento digital, por exemplo, nunca esteve tão forte. Produções de séries, filmes e programas de televisão são gravadas em cidades por todo o país e produzidas por empresas profissionais em terras canadenses. Mesmo Hollywood se rende ao potencial canuck. Empresas de videogame recebem investimentos e incentivos fiscais milionários e contratam pessoal praticamente todas as semanas e com previsões cada vez mais otimistas de mercado.

Do outro lado, mesmo com a chegada de milhares de imigrantes todos os anos, alguns setores continuam sofrendo com a carência de profissionais. Médicos, enfermeiros, engenheiros, arquitetos e todo o gênero de gente qualificada e com experiência em suas áreas, chegam às centenas mas o mercado exige que encarem processos de validação de diplomas e reconhecimento da profissão que, em alguns casos, podem acabar se tornando verdadeiras peregrinações que nem sempre garantem um final feliz.

Como se tudo isso já não fosse suficiente, toda a inquietude mundial parece estar tendo efeitos maiores do que o esperados aqui no Grande Norte. O StatsCanada divulgou que a taxa de inflação chegou a 2.4% em Outubro, um índice muito preocupando quando o cenário previsto era algo em torno de 0.9%, causados, principalmente, por conta da queda do preço dos combustíveis – como eu comentei no início. Entre os principais vilões, gás natural (20.1%), carnes (12.4%) e cigarros (11.5%). Isso é o suficiente colocar o Canadá com o maior índice de inflação entre os países “desenvolvidos”, tirando o Japão que ficou em primeiro lugar por conta do aumento dos impostos sobre vendas de produtos. Por que isso é ruim para o país? Uma das conseqüências previstas é o aumento da taxa de juros e com isso afetar todo a economia, muito provavelmente afetando diretamente o mercado imobiliário e todos envolvidos.

A realidade do emprego

Em um mercado exigente e competitivo que não telefona, não manda flores nem pergunta se você está bem, encontrar um emprego parece ser uma tarefa ainda mais dura a cada dia que passa. O que é realmente uma atitude estranha, principalmente com a constante necessidade clara que a gente enxerga em alguns setores, sobretudo em áreas de base e muito além da tão falada área de saude. Ainda que tenha tido o melhor desempenho entre os países do G7 em termos de geração de empregos (um milhão de empregos desde o início da recessão, segundo o líder do Governo, Peter Van Loan) a realidade interna requer um pouco mais de atenção.

Como eu já disse, New Brunswick teve um crescimento negativo de vagas, cerca de 2.9%, o pior desempenho do país, um reflexo da falta de oportunidades na própria província, muito pior ainda que nas Ilhas de Príncipe Eduardo, cuja principal fonte da economia é a agricultura. Difícil de compreender mesmo é Manitoba, que teve uma perda de 11.000 empregos. Mesmo tendo aberto seu próprio programa de imigração com campanhas aos quatro ventos, a província acaba não tendo atrativos suficientes para competir com o “boom” do petróleo em Alberta ou dos mercados financeiros e de tecnologia em Ontário e British Columbia.

Québec, a segunda maior província do país em termos de população e a única das províncias fora do atlântico a ter um crescimento negativo, tem um panorama também pouco animador. Québec acabou de passar por uma dupla mudança de primeiros ministros. Com a eleição do Partis Québecois a decisão de cortar o orçamento estipulado pelo governo anterior veio como primeira medida. No ano seguinte, depois de notar que um governo minoritário não ia ser fácil, o mesmo PQ convoca precocemente outra eleição e perde o poder em uma virada inesperada. Novo Governo, novas ações, novamente corte no budget. Conclusão: investimentos ainda menores.

Não bastasse o mal estar causado pela política pró-francês e anti-anglofonia do PQ ter servido de motivação para muitos deixarem a província, os sucessivos cortes de orçamento tiveram efeitos cada vez mais aparentes. Recentemente o Governo decretou que as novas contratações para o serviço público estão canceladas, juntamente com novos contratos com empresas prestadoras de consultoria, afetando assim a estratégia de muitas pessoas que viam no funcionalismo público seu modelo de vida.

E agora?

O Canadá passa por um longo processo de crescimento e reformulação de proporções semelhantes ao seu tamanho. O país até que passou bem pela crise econômica de 2009. Mas o mundo mudou. Tem se tornado cada vez mais cauteloso em termos de investimentos, motivado em grande parte pelo risco de uma pandemia de ebola e de grupos terroristas cada vez mais radicais, causando medo e incerteza na população e nos países em geral.

Apesar de ser uma nação jovem, vista como cordial e disposta a ajudar, o país não é perfeito e passa por problemas como qualquer outro. A população reclama dos seus governantes, sofre por causa do desemprego, é vítima e algoz da violência e da intolerância. Você pode até mesmo dizer: “Ha! Mas eles não sabem o que é ruim! Queria ver terem a minha vida!” E esse é exatamente o ponto. Eles não viveram. Por outro lado, eles não se importam de pedir desculpas e de buscar soluções. Talvez cheguem a soar ríspidos e nada amigáveis pra você, mas talvez eles também pensem assim sobre nós. Mesmo com um sistema de saúde eficaz, ótima educação e um nível de segurança que muitos sonhariam ter, a realidade do canadense foi outra. Não foi a sua, não foi a minha.

Eu, como canadense, vou fazer a minha parte. Viver de acordo com os valores que eu jurei obedecer e lutando para que este continue sendo o lugar que eu escolhi; sempre buscando aprender e melhorar, valorizando a igualdade entre as pessoas e o respeito à opinião; servindo de exemplo para tantos outros e sendo capaz de aprender com meus erros e principalmente com o dos outros.

Cabe a cada um descobrir seus próprios parâmetros, decidir o que acha melhor para si e tomar suas próprias decisões. Eu espero que você também faça a sua parte quando colocar seus pés aqui, no nosso lar. E se apesar de tudo isso, eu acabar lhe ofendendo ou errando com você, minhas sinceras desculpas. Eu acho que tenho o direito de errar também. Afinal, até o nome deste país começou um dia como grande mal entendido.

Fontes
http://www.thestarphoenix.com/business/Canada+climate+policy+hasn+resulted+energy+super+power/10285206/story.html
http://www.straight.com/news/david-suzuki-oilsands-and-pipeline-debates-hindered-lack-canadian-energy-plan
ttp://www.huffingtonpost.ca/2014/10/15/interprovincial-migration-canada_n_5990378.html
http://oilsandstruth.org/david-suzuki-tar-sand-wealth-comes-environmental-costs
http://www.huffingtonpost.ca/2014/11/06/jobs-by-province-and-industry_n_6110304.html
http://www.thestar.com/news/canada/2014/01/28/does_canada_really_have_best_job_creation_record_in_g7.html
http://www.huffingtonpost.ca/2014/11/24/inflation-canada-highest-developed-world_n_6214672.html

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Masaru Hoshi

Written by Masaru Hoshi

A última coisa que você vai imaginar olhando pra cara dele é que ele é japonês. Engenheiro de software e co-fundador do Canada Agora. Mora no Canadá desde 2008 e é um apaixonado por viagens.

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