Sozinha, com dois filhos pequenos, no Canadá

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Sozinha, com dois filhos pequenos, no Canadá

Neste dia 23 de outubro, completei 1 ano de Canadá. Já estou na metade do meu curso no College, que devo concluir em abril do ano que vem. A batalha tem sido árdua, mas altamente gratificante até aqui. Sinto uma alegria muito grande e um imenso orgulho por ver que estou conseguindo, passo a passo, atingir os objetivos que estabeleci nesta minha vinda para cá.

Como talvez alguns já saibam, eu vim sozinha com meus 2 filhos, de 8 e 10 anos, para o Canadá. Meu marido continua no Brasil, trabalhando. Somente depois que eu terminar meu curso é que poderemos definir nossa situação. Essa não foi uma escolha minha, não é o cenário que eu considero ideal, mas foi a única alternativa que me foi apresentada naquele momento. Ou eu aceitava o desafio, ou eu continuaria no Brasil, sem ter a chance de experimentar todo o enriquecimento profissional e pessoal que esta vinda para o Canadá proporcionará para mim e para os meus filhos. Eu escolhi vir, mesmo sabendo que a carga de trabalho seria bastante pesada. Antes de vir, fiz uma análise muito clara, prática e racional de tudo o que eu poderia encontrar por aqui. Fiz uma grande preparação psicológica para enfrentar o desafio que é fazer uma jornada destas, sozinha, com 2 crianças. A preparação foi intensa, como se estivesse prestes a enfrentar dois enormes monstros – o da imigração e o do frio – este último, aliás, ainda mais temido que o primeiro. No final das contas, todo o processo de adaptação foi mais tranquilo do que aquilo que eu imaginava – talvez, justamente, por eu ter me preparado para o pior. Até agora os resultados têm sido muito positivos e vejo que tanto eu, quanto meus filhos, crescemos e aprendemos muito neste processo todo.

A decisão de vir sozinha com duas crianças traz uma série de implicações. Como muita gente me pergunta com tem sido minha vida aqui, em função desta minha escolha, vou compartilhar com vocês quais as maiores dificuldades que encontrei estando aqui.

 

As implicações de vir sozinha com 2 filhos

 

1. Rotina mais puxada

A implicação mais óbvia de todas é que sua rotina será bem mais puxada do que se você tiver alguém com quem possa dividir tarefas. Durante a semana, você terá uma média de 20 horas de aulas no College ou Universidade (dependendo do curso, pode ser mais). Somadas a estas 20h, você ainda terá que dedicar algo entre 20 e 30 horas em casa, para fazer trabalhos e estudar para as provas. Ao mesmo tempo, você precisará cuidar minimamente das tarefas da casa: fazer comida, preparar almoço e lanchinhos para que seus filhos levem para a escola, levar e buscar os filhos na escola (caso eles ainda não possam ir sozinhos), limpar a casa, lavar roupa, lavar louça, fazer compras (no mínimo, uma vez por semana).

 

2. O peso emocional de fazer tudo sozinho

Acredito que esta seja a coisa mais difícil de lidar quando se está sozinho em outro país com os filhos. Não ter uma pessoa adulta com quem dividir as tarefas é algo que “pega”, mas não com quem dividir as responsabilidades pesa muito mais. Você sabe, o tempo todo, que tudo depende de você e que, por isso, você não pode falhar. Isto gera uma cobrança muito grande de você consigo mesmo e é preciso muita força e estrutura emocional para lidar com isso o tempo todo. No entanto, sabemos que, como todo ser humano, estamos sujeitos a falhas – e elas acontecerão em alguns momentos.

 

3. Quando você, ou um dos seus filhos, adoece

Exatamente como eu disse no item anterior, somos humanos e temos os limites que nosso corpo é capaz de suportar. Por isso, haverá momentos em que você pode acabar adoecendo. Eu fiquei doente algumas vezes aqui durante este ano e posso dizer que esta situação, para mim, é meio desesperadora: eu me vejo sem poder atender meus filhos, sem conseguir cozinhar para eles, sem poder ir para minhas aulas. E, morando numa cidade tão grande, onde todos estão muito ocupados com sua rotina diária, é muito difícil encontrar alguém que possa me substituir neste momento. Para minha “sorte”, só fiquei doente, realmente “de cama”, umas duas vezes. Depois da segunda vez, passei a tomar um complexo vitamínico que parece estar me ajudando, já que desde então não peguei mais nenhum resfriado sequer. Tenho cuidado muito também do fator “cansaço”, dando prioridade ao descanso, sem me importar se dei conta de tudo o que tinha para fazer durante o dia ou não. Também retomei minha rotina de exercícios físicos, que me ajuda muito a me manter forte e saudável. No fim das contas, o que eu fiz foi diminuir um pouco o grau de exigência comigo mesma, pois o stress gerado por esta cobrança constante também afeta a resistência imunológica.

Pode acontecer também de um dos filhos ficar doente, ainda mais no período de adaptação inicial à escola, ao novo país, ao clima. Sei que esta situação é comum a todos que vêm com filhos. No entanto, quando se está sozinho, isto é um pouco mais complicado, pois você não terá ninguém com quem deixar seus filhos para poder ir assistir aulas.

 

4. Incompatibilidade de horários

Uma outra implicação de vir sozinho com os filhos é a incompatibilidade do horário de aulas das crianças com seus horários de aulas. Da mesma forma, isso acontece também quando a família toda vem junto, mas acredite: nestas horas é um pouco mais difícil não ter ninguém com quem contar. Para solucionar esta incompatibilidade, há os serviços de before e after school. No entanto, nem todas as escolas oferecem estes serviços – e, em algumas que oferecem, você pode se deparar com uma longa fila de espera. Neste caso, a saída é arranjar uma pessoa para cuidar dos seus filhos, nos dias da semana em que você tenha aulas que comecem muito cedo ou terminem mais tarde.

Há também os períodos de férias escolares das crianças e os PA Days. PA Day significa “Professional Activity Day”. No frigir dos ovos, o PA Day nada mais é do que um dia em que seus filhos não terão aula, para que os professores possam participar de atividades de desenvolvimento profissional na escola. Para estes períodos, você também terá que contratar alguém ou algum serviço de Child Care (falarei mais sobre isso em um próximo post).

 

5. Falta de tempo para dar atenção para os filhos

Eu estava escrevendo este texto quando o Berg publicou o texto “Por que eu tenho de me dedicar aos meus filhos“. Lendo o texto dele, eu percebi que o que ele cita lá é quase tudo o que eu NÃO consigo fazer aqui. Não dá. Infelizmente não dá. Eu até tentei no começo, mas estava sendo inviável para mim gastar entre 1 hora e meia a 2 horas por dia para ajudar meus filhos nas tarefas escolares. Isso me angustiava muito, porque eu ainda tinha que fazer as minhas tarefas, estudar para as minhas provas –  e dormir! Então, resolvi contratar uma pessoa para ajudá-los nas tarefas escolares – o que significa mais um custo extra com o qual é necessário arcar.

 

6. Falta de tempo para lazer

Bom, tudo isto posto, acho que dá para perceber que não sobra tempo para lazer. Se o seu curso tiver férias no Summer, pode ser que você consiga ter um pouco de lazer nesta época do ano. No entanto, alguns cursos são feitos sem que os alunos tirem férias no Summer, principalmente os cursos com início em janeiro (que é o meu caso). Se o curso que você escolher for assim, prepare-se para enfrentar um ritmo bastante puxado durante (quase) todo o período de duração de seu curso.

Afinal, esta escolha é viável?

Vir sozinho com os filhos não é algo que eu recomende a ninguém, justamente em função de todas estas dificuldades que eu listei acima. O fator emocional, de separar a família por um longo período, também torna as coisas ainda mais difíceis. Houve vários dias em que eu não queria ser o único adulto da casa, em que eu queria ter um ombro onde me aconchegar, queria ter um outro adulto para conversar – e não tive. Conversar por Skype com o marido e a família que está no Brasil pode ajudar, mas não é suficiente. Para períodos mais curtos, de até 3 ou 4 meses, acho que não há grandes problemas nesta escolha. No entanto, para períodos mais longos, é fundamental que se avalie detalhadamente todos os cenários disponíveis e verifique se não há mesmo uma outra alternativa para você e sua família. No meu caso, não havia, e foi por isso que optamos por este caminho, mesmo sabendo o quão difícil seria. A busca pelo nosso objetivo maior, de termos uma vida futura mais compatível com nossos valores e princípios, é o que me mantém firme nesta caminhada.

Apesar de ser bastante difícil, posso dizer que os resultados têm sido muito gratificantes para mim. O sentimento de orgulho pela superação das dificuldades e pelas conquistas de cada dia me motivam ainda mais a seguir em frente. Para viabilizar minha rotina aqui, adotei algumas estratégias para reduzir um pouco minha carga de trabalho. Encontrei também algumas formas de aumentar a produtividade no meu dia a dia, para poder abrir uma margem e ter ao menos um pouco de tempo de lazer com meus filhos. Sobre tudo isso, falarei em um próximo post.

E você que me lê agora, tem também uma rotina puxada por aqui? Passa também por estas dificuldades de aliar a rotina de estudar e cuidar dos filhos? Conte-nos nos comentários. Sua opinião é muito bem vinda!

 

Créditos da Imagem: adaptado de “Poetry In The Moment”, de Katie M. Berggren. https://www.pinterest.com/source/kmberggren.com